domingo, 9 de junho de 2013

o brilho dos olhos da minha avó...

Cecília Vilas Boas

Foi com o brilho dos olhos da minha avó que comecei a ondular palavras e a soltar 
barcos que criava repletos de sonhos. Os seus cabelos brancos eram as nuvens onde 
gostava de brincar. Perdia-me nas suas histórias. Inventava mundos onde a alegria 
era imensurável. As veredas por onde caminhava a saltitar, dependurada da sua mão, 
estavam tapadas de pólen. Passava as mãos pelas sabrinas e olhava os meus dedos. 
Estavam cobertos por uma imensa luz. Com o brilho conseguia pintar sois e estrelas. 
Olhava a minha avó nos olhos e bebia o seu sorriso tranquilo. Sabia que quando as chuvas 
chegassem estaria protegida no seu colo, pelo seu amor. Sentia a sua sabedoria quando 
me abraçava e dialogava comigo em silêncio, olhos nos olhos. No cabaz dos sonhos 
guardei a bicicleta que me ofereceu quando um dia lhe disse que gostaria de conhecer o mundo. 
Ainda ouço o seu coração. Batia fortemente quando falava da terra, das gentes, dos sentires. 
Depois, apertava-me junto ao seu peito e viajávamos as duas de olhos fechados nos ventos 
que sobrevoavam a nossa casa. Na primavera escutávamos os pássaros que vinham de sul no 
voo sibilino do fim da tarde. Traziam sempre esperança nos olhos e liberdade nas asas. 
Durante o tempo que permaneciam junto ao rio, nas árvores que davam frescura à nossa casa, 
morava com eles. Trocava as palavras pelas asas. Era tanto o azul e o verde que os medos 
ficavam coloridos. E éramos cúmplices neste silêncio que adubava o nosso coração. 
Os pássaros, o vento, eu, a minha avó e as memórias (…)

sábado, 8 de junho de 2013

Linhas sobre nós e os nossos nós.

Débora Andrade
 
Eu sei que não foi mentira. Eu sei que nos amamos como se fossemos morrer no outro dia, mas levantando preces para que fossemos eternos. E seríamos eternos apaixonados, um pelo outro. Seríamos só nós dois. Porque o mundo, parecia figurante na nossa história. Escrevemos páginas lindas, cheias de amor. E agora você simplesmente me solta, e me manda nadar, me diz que talvez, nade comigo de novo, um dia, mas que não sabe. Você vem e me diz pra sorrir, mas os teus sorrisos não me acompanham, os teus braços não estão mais me envolvendo, o teu corpo e o meu, separados. E eu nado, e sorrio, e vivo, olhando pra você, na praia, com um sorriso tímido, como o de um espectador que pouco ou quase nada me conhece. Aquele sorriso de quem se foi, mas espera que eu entenda que da praia, ainda me vê, vez ou outra, mergulhando. E eu nado, e sorrio, e não quero te devolver um sorriso tímido, porque soa falso. Você me conhece tanto. E agora, agir como estranhos é, estranho. E doloroso. Sabe, talvez este seja o último escrito sobre você. Entretanto, eu viveria cem anos escrevendo sobre o seu sorriso, sobre cada parte de você. Sobre nós. Mas tantas linhas não cabem entre sorrisos tímidos, entre estranhos. E você pede que eu cuide da minha saúde, e eu cuido, porque sempre fiz o que você pedia, só porque era mesmo o melhor a se fazer. Você só errou em desistir de nós. Quando você me pede pra viver, quando me fala para não negligenciar a minha saúde, penso no quanto a minha cura está em você. Só que, eu, eu estou no mar, nadando e nadando, e você na praia. E eu não consigo chegar até você, porque você me olha como quem quer que eu fique no mar. E eu não resisto às suas vontades. Penso que sempre vou te amar, e talvez sim, eu tenha outros amores, esse alguém melhor do qual você fala, mas tenho a impressão de que você nunca sairá de mim; e não falo das memórias, falo de você assim, inteiro, o homem para o qual entreguei o meu amor. Eu nunca desistiria de nós. Não acho que eu seja melhor do que você por isso, afinal, sempre achei que você era a melhor parte de mim. Você era o amor, e pra mim, o amor é tudo. Você foi o meu tudo. Por isso me sinto vazia e triste. E me sinto pouco, como se eu não fosse suficiente pra mim. Eu deveria ser, sabe? E estou tentando ser. Sei de um monte de coisas, racionalmente. Quero dizer, a minha razão me aponta diversas teorias, mas na prática, é só você. E não é. Nem somos mais. Estou nadando sozinha. Mas, continua sendo você. Eu te olho na praia, e quase esqueço de nadar, de tanto que me dói o fato de você não estar comigo. Mas então eu nado mais, porque você não teria sequer esse sorriso tímido se visse que me afoguei. E mais uma vez, é mais por você do que por mim, que nado. Às vezes sinto uma câimbra, outras me falta o ar, então, eu me agarro em qualquer coisa, pra não me afogar. Desidratada, machucada, mas sem poder voltar, sem descanso, sem você pra me amparar, pra ser o meu salva vidas, o meu porto seguro. Me desculpe se estou tão fraca agora. Me desculpe por não saber nadar direito, nem sorrir direito, ou por ter deixado, já sem forças, que tudo me abatesse ainda mais. Me desculpe pelas oscilações, é que tento ser forte, caio de novo, mas vou levantar, porque é o que você me pede. E eu não resisto. Porque também é o que preciso, porque não posso caminhar na praia ao teu lado, já que me coloca na água de novo, com toda a sua delicadeza que me insulta. Você é docemente bruto. Como pôde desistir de nós? Nos amamos. Amamos, no passado e também no presente. Mas como podes amar assim? Eu nunca soube te amar sem querer te ter. Agora o faço porque não me couberam escolhas. Isso é tão arrasador, talvez humilhante, mas não importa. Se a minha vergonha for amar, eu a aceito. E se estou assim, triste, não é por amor. É pela ausência dele.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Alegria!

Lu Nogfer

Às vezes a gente amanhece
Com a alegria brotando nos olhos
Ela acorda a gente fazendo cócegas
 No corpo, no coração e na alma
Se o sol nasce a gente contempla
Se a chuva cai a gente agradece
Se o céu amanhece nublado
A gente  exclama contente:
-Que tempo bom!
Nem frio, nem quente!
Hoje, pulei da cama com essa alegria toda!
Usando vermelho na pele e nos cabelos, flores
Ah! Que alegria moleca e escandalosa
Que salta com a menina dos olhos
Como a criança que ganha um bombom
Como o menino que da o primeiro beijo
Como  a menina que ganha o primeiro soutien
Que alegria danada de boa esta!
Que enche de brilho a esperança
Enquanto os meus sentidos fazem festa

"Reflexos"


 (Lu Nogfer)


O sol foi coberto pelas turvas nuvens, o tempo fechou de repente e já não parecia dia.
A claridade dos relâmpagos entrava pela vidraça acendendo aquela mente um tanto fértil  e escurecendo ainda mais aquele momento frio e confuso.

A chuva começou a cair em tons tempestuosos e assustadores. E ela ali, coberta tal qual o céu e os espelhos.

Um vácuo invadira o seu estado natural. A tarde veio, anoiteceu e ela adormeceu ...

Pela manha, cumpria-se a frase clichê: "Depois da tempestade vem a bonança"
Um arco íris em seu rosto anunciava dias de sol. Já podia novamente olhar-se nos espelhos.

Olhou pela janela e nem sequer havia vestígio de chuva. Fora apenas reflexos dentro de si, devaneio da alma, frívolos da mente, indagações, assombrações...
A tempestade passou, enfim.

Há coisas que não existem a não ser por dentro...
Basta a paciência de organizar os pensamentos para domar os fantasmas.
Basta perceber que tudo não passa de fantasias.
Basta adormecer o temporal para que um novo dia brilhe.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

CONTA CORRENTE

CHICO XAVIER
A gente pode morar numa casa mais ou menos, numa rua mais ou menos, numa cidade mais ou menos, e até ter um governo mais ou menos. 

A gente pode dormir numa cama mais ou menos, comer um feijão mais ou menos, ter um transporte mais ou menos, e até ser obrigado a acreditar mais ou menos no futuro.

A gente pode olhar em volta e sentir que tudo está mais ou menos...

TUDO BEM!

O que a gente não pode mesmo, nunca, de jeito nenhum...
é amar mais ou menos, sonhar mais ou menos, ser amigo mais ou menos, namorar mais ou menos, ter fé mais ou menos, e acreditar mais ou menos.

Senão a gente corre o risco de se tornar uma pessoa mais ou menos.


Chico Xavier.

Este texto é bem conhecido, talvez você já conheça, mas acho tão belo e importante de ser meditado e levado a sério em tempos de correria, falta de tempo e de comunicação verdadeira. 
A gente fica no face mas não conversa com o vizinho, não senta no banco da praça. 
A foto para o face ou o filme para o youtube não podem substituir o momento sublime de um por-de-sol  no meu Rio Guaíba. 
Luto para não ser uma pessoa mais ou menos, para fazer a diferença e deixar a minha marca na vida das pessoas que amo, e modestamente se puder, ajudar os que padecem dos mesmos males do que eu neste compartilhamento de experiências.
Luto para não ser tragada pela mediocridade que infelizmente atingiu os tempos modernos, com a massificação das pessoas pela mídia que ordena desde o que vestir até o comportamento social. 
Para não ser uma pessoa mais ou menos, você deve olhar para si e buscar na tua essência a tua verdade. É ela que vai te guiar pela vida, e é com ela que você vai trilhar o teu caminho, que é único, pessoal e intransferível. 
O preço a pagar por não seguir à risca as regras sociais efêmeras é alto, mas vale a  pena. Lá pelas tantas você olha seu passado e pensa: esta é a minha vida, e eu a construí com a minhas forças e meu sacrifício. 

sexta-feira, 24 de maio de 2013

COISAS DA VIDA



João Almeida

Acompanhando minha nora Jarli a um hospital para tratamento de câncer exclusivamente feminino, pude observar sofrimentos que tornava aquele ambiente ponto para reflexão em meio a resultados positivos, vitórias de umas e lutas penosas de outras . Por três meses fui acompanhante, voltei para Bahia e um ano se passou a cirurgia foi marcada e imediatamente programamos a minha vinda para dá apoio à família do meu filho, hora a caminho do hospital, noutras no caminho da creche da minha neta. No dia da cirurgia chegamos antes do retorno de Jarli para o quarto, uma enfermaria de duas camas , assim observei a chegada de mais uma paciente à caminho de uma cirurgia, uma figura franzina e muito simples , chegou só, se acomodou no leito e ficou a olhar para o teto com ar de tristeza. Quando minha nora chegou, meu filho era todo amor, esbanjava zelo, Mariazinha sem entender nada se conformou com nossa explicação de que mamãe estava dodói, e jogou beijos, eu me inclinei e beijei a sua cabeça, quando me virei em direção da paciente vizinha observei que ela olhava para nós e chorava, aquelas lágrimas me tocaram profundamente e sem pensar duas vezes fui à beira da sua cama, procurei o que dizer e disse o que foi possível para anima-la, se consegui não sei, mas fiquei satisfeito com um sorriso misturado com lágrimas como resposta. Não fui ao hospital no dia da alta de Jarli e em casa perguntei por aquela pessoa, e ouvi que as duas conversaram muito e que aquela mulher foi criada sem os pais, vivia uma vida muito difícil e por isso aquela solidão doía tanto. Certamente saiu só do hospital e espero que vitoriosa, mas aquele rosto triste derramando lágrimas eu nunca mais esquecerei.

É A SAUDADE !

Estou feliz cumprindo minha missão em Sampa, bom ver minha nora se recuperando bem e com a auto estima lá em cima, apesar das dificuldades atléticas que gostoso curtir Mariazinha e quanto é compensador para um pai ver um filho guerreando (trabalhando duro) para suprir as necessidades da sua familia. Vou estar aqui até a data prevista me esforçando para ser útil no que for possível, mas acreditem: Que saudade de Maria !!! Ah! as minhas chuvinhas de junho, o cheiro no ar de preguiça e o balanço manhoso da minha rede. Ah! o friozinho "metido a besta " e que nada se parece com o rigor da temperatura baixa daqui. E o verde exuberante do roçado de milho dos meus vizinhos, este ano não semeei mas nem por isso vou deixar de comer canjica, Ah! as minhas fogueiras de todos os dias, lenhas bobas que se consomem testemunhando as conversas minha e de Lidú. Ah! Maria com seu casaco listrado de todos e muitos anos saboreando um bolo melado de "Sinhá Barbina". Meu licor de genipapo, minhas laranjas doces no tom do mel, conversas com Tonho e Bia e meus amigos do mato.
SAUDADE BOA É ISSO AÍ !