sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Canção de Ventos

Georgio Rios
Andre Kohn
Chove em meu coração,
que dita pequenas e inúteis guerras,
que abre portas e deixa escapar
certas notícias daquilo que desconheço,
e destas, das que desconfio...

(E a quem não interessar deva, ou possa!)

Quero admirar a ironia das pedras em sua
imóvel fúria de sal e sol,

e por vezes sombras,
algumas aves a lhe cochichar segredos de asas.

(E a quem não interessar deva, ou possa!)

Sinfonia marinha de ondas,
das vagas que movem
o mar as mesmas forças imóveis dos barcos
a gastar seus cascos no carinho caustico das ondas

(E a quem não interessar deva, ou possa!)

Ouvir certas cores que depõem a curva da tarde,
quando os olhos, só os olhos, pedem que tudo termine em
Silêncio , apenas. 

domingo, 27 de janeiro de 2013

Um passo preto canta numa viagem de ônibus


No ônibus vazio, seguia tranqüila observando os resultados de três dias consecutivos de chuva de verão: muita lama, bueiros transbordando, barrancos caindo e sujeira geral. Em uma parada próxima ao final de linha, entra uma voz forte e melodiosa no coletivo, cantando uma composição de Jorge Versilo em uma interpretação a Emílio Santiago. Os versos tratavam do aprendizado proporcionado pela dor, concluindo que o amor era, simplesmente, o encontro das águas. Bonitas, a música e a voz. Estiquei o pescoço para ver quem era o cantor e não vi ninguém. Ouvi um barulho de tamancos e olhei para o chão. Então vi um rapaz negro com o tronco muito desenvolvido contrastando com as pernas finíssimas, dobradas, próximas às mãos, que faziam o papel dos pés. O moço cantava como o passo preto da minha infância, só que alegre e livre –o que é que eu vou fazer com esse fim de tarde, pra onde quer que eu olhe, lembro de você, não sei se fico aqui ou mudo de cidade (...). Bom repertório, pensei, dobrando os lábios daquele jeito que a gente dobra quando pensa. Enquanto cantava ele tirava a mão calçada com luvas de goleiro do tamanco esquerdo e a estendia a cada pessoa sentada. Tratei logo de pegar minha contribuição para o artista e mereci outro trecho de música. Parecia que ele adivinhava o sentimento da gente: confesso que chorei, não suportei a dor, é doloroso se perder um grande amor. Puxa véio, um pico de Jorge Aragão na artéria femoral. Overdose para qualquer coração. Lágrimas à parte, o moço seguia com seu sorriso largo e eu pensava: que diferença daqueles meninos que entram no ônibus em São Paulo com aquela ladainha insuportável – se-nho-res pas-sa-gei-ros, des-cul-pe in-co-mo-dar a vi-a-gem de vo-cês e toca a contar a saga da família de dez irmãos, pai desempregado e mãe com câncer, todos passando fome, só ele em condições de pedir, e pedir, como todo mundo sabia, era melhor do que roubar. Não satisfeito, o adolescente capricha mais um pouco na cara de dor de barriga e entoa uma música sertaneja qualquer, imitando o sertanejo do momento. E você ali, ouvindo, querendo colar a matraca do moleque com cimento e sentindo uma saudade desesperada das modas de viola de Pena Branca e Xavantinho. Mas aí volto para o ônibus em Salvador e reparo que, enquanto girava o corpo sobre as mãos, dirigindo-se à porta da frente para ir embora, o rapaz cantor reconhece uma amiga e começam a conversar. A voz dela é muito baixa e eu não entendo. Entretanto, ele fala alto, para alegria da minha curiosidade. Ele conta que na semana anterior tinha faltado à faculdade porque havia tido dois coágulos nas pernas e a dor, arretada, não o deixara sair de casa. Naquela semana, todavia, voltaria às aulas e à capoeira (balança o tronco cheio de ginga). Só pode ser angoleiro, concluí segura. Pulando sobre as mãos, ele se despede cantando uma canção do Luís Américo, sucesso nos anos 70: sou filho da véia, oh, eu não pego nada, a velha tem força, oh, na encruzilhada! (Do livro Cada tridente em seu lugar).

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Nunca pensei que a saudade, Doesse assim desse jeito.







No tempo da juventude 
Quis seguir meus ideais...
 
Deixei o lar dos meus pais
 
Tomei na vida atitude.
 
Mas depois vi que não pude
 
Satisfazer o meu peito,
 
Pois percebi o defeito
 
Na prisão dessa verdade,
 
Nunca pensei que a saudade
 
Doesse assim desse jeito.
 

Voei pra fora do ninho
 
Ao perceber minha “asa”,
 
Mas deixar a minha casa
 
Não foi o melhor caminho.
 
Eu me sinto um passarinho
 
Num canto escuro e estreito,
 
Sendo o principal suspeito
 
De querer a liberdade.
 
Nunca pensei que a saudade
 
Doesse assim desse jeito.
 

Não sinto mais o sabor
 
Da comida sobre a mesa,
 
Pois mãe com toda certeza
 
Temperava com amor.
 
Nem mesmo o meu cobertor
 
Está cobrindo direito,
 
Não tiro dele o proveito
 
Da antiga comodidade.
 
Nunca pensei que a saudade
 
Doesse assim desse jeito.
 

O meu pai que foi meu mano
 
Dos meus momentos felizes,
 
Estará nas “cicatrizes”
 
No decorrer desse ano.
 
Ele que apoiou meu plano,
 
Puramente por respeito,
 
Mas sei que dentro do peito
 
Não era a sua vontade.
 
Nunca pensei que a saudade
 
Doesse assim desse jeito.
 

Desfaço e faço a bagagem
 
E fico nesse dilema
 
Pra resolver o problema,
 
Mas eu não tenho coragem.
 
Um sentimento selvagem
 
Toma conta e eu não rejeito,
 
Pois eu sei que o sonho é feito
 
Com essa dualidade.
 
Nunca pensei que a saudade
 
Doesse assim desse jeito.
 

Pensei que os primeiros dias
 
Eu podia superar,
 
Mas vi o tempo passar
 
Desviando as alegrias.
 
Nas noites das agonias
 
Ponho o travesseiro ao peito,
 
Mesmo não sentindo efeito
 
Da familiaridade.
 
Nunca pensei que a saudade
 
Doesse assim desse jeito.
 

Esperem que logo mais
 
Voltarei pro meu regaço
 
E aí sim, refaço o laço
 
Da união junto a meus pais.
 
E serão tempos reais
 
De um filho pródigo, imperfeito,
 
Que seguiu o seu conceito
 
Vivendo em simplicidade.
 
Nunca pensei que a saudade
 
Doesse assim desse jeito.
 

domingo, 6 de janeiro de 2013

Rosbife amanhecido


Estupenda, a montanha que arqueia suas corcovas
enlameadas sobre os caminhos, os caminhos
de sangue das bromélias,

...das bromélias
de antigamente

Estúpida e linda
esta lua sem manchas
radioativa e lúcida
qual um camelo
um vira-lata
uma canção...

se lhe resta
o sol espiando por entre as folhas
antes das águas
e dos clamores
vai-te feliz por entre as ruas
por entre os bares
por entre os seres
que lhe roubaram
o futuro, as flores
da vitória, amarelas
e fúnebres


as flores da morte
nas quais revives
solitário, infeliz, triunfante
elefante negro e robusto
pouco antes de ser caçado

terás o desencontro
das noites vazias e manhãs atormentadas
mas de ponteiros velozes,
traiçoeiros
como flechas envenenadas

um sinal fechado
o trem que surge, universal
na direção de tua queda
fracasso de sombras
elefantes, flores e negras

jogos de sinuca na segunda-feira
não são como outrora

calma, leia a bíblia
termine a cerveja respire fundo
após a manhã chuvosa, virá o desespero,
o sol esfomeado e brutal
de seu trabalho...

sevando as flores
rudes de um amor
infindo

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa a passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria. Cada um tem a sua hora e a sua vez: você ainda há de ter a sua."

João Guimarães Rosa (poeta brasileiro)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

ANTES QUE O MUNDO ACABE





 

19.12.12

Do Blog: Eu é um outro
não vou fingir felicidade
de fim de ano,
que essa felicidade
sempre foi uma espécie de ilusão.
desde quando o homem
inventou a televisão e as revistas,
essa felicidade e a margarina
sempre foram duas obrigações
- depois do facebook,
certas ilusões passaram a durar o ano inteiro.
não vou compactuar com as mentiras digitais.
não vou acender velas para os gênios
vivos e mortos da tecnologia.
nem para os cérebros articuladores
por trás dos veículos de comunicação.
quando o mundo acabar,
nenhum computador sobrará
para contar nossas histórias.
nenhum pen drive, nenhum tablet
nenhuma revista, nenhuma televisão...
e mesmo que sobrassem, resistentes ao fim,
para nada serviriam.
se um tsunami invadir esta cidade,
transbordando a Lagoa do Violão aqui ao lado,
a Maria da feira e eu
teremos a mesma expressão de desespero sobre o rosto.
ninguém na cidade se preocupará
em salvar sua câmera digital antes da inundação.
não sobrará nenhuma fotografia da morte
e do sangue das horas derradeiras.
os pescadores nos barcos, os comerciantes,
os advogados, as cabeleireiras,
as donas de casa, os velhos, as crianças,
os padeiros, as faxineiras,
os garis, as margaridas, os professores,
os médicos, os enfermos no hospital,
e até os feirantes, que não estarão trabalhando
na sexta-feira do dia vinte e um,
todos irão afogar sob as águas
misturadas do mar e da lagoa,
chocando-se em tudo o que vier
pelo caminho com a cataclísmica enxurrada.
quando o mundo for acabar,
é certo que ninguém estará sorrindo.
e que até os ateus, descrentes de um juízo final,
nessa hora gritem "Oh, meu Deus!"
quando o mundo for acabar,
todos os papéis se transformarão em nada, todos os livros,
todos os pensamentos que foram registrados,
todas as ideias não servirão nem para embrulho de peixes.
que sequer haverá quem coma peixes.
que sequer haverá quem possa ler
qualquer coisa que já tenha sido escrita.
- que sequer haverá quem.
quando o mundo for acabar,
ninguém estará fazendo a social na rede.
a desgraça e o desespero
serão as únicas coisas compartilhadas.
nossos pais, irmãos, tios, primos,
amigos e amigos dos nossos amigos,
todos teremos apenas caos e desordem,
e nada disso será motivo para curtir.
quando o mundo for acabar,
haverá luzes e sons pelos céus
muito mais impressionantes
do que quaisquer fogos de artifício.
ninguém assistirá ao espetáculo estourando champanhes
nem desejando ao outro que o próximo ano seja melhor.
- um próximo ano simplesmente não virá para mais ninguém.
nem para a natureza como a conhecemos
nem para os bichos, e nem para as coisas feitas pelo homem
para as pirâmides, para o Cristo Redentor,
para a Torre Eiffel, para o Machu Picchu,
para as estátuas da Ilha de Páscoa,
para o Palácio do Planalto, para a Casa Branca,
para qualquer tipo de casa...
tudo se transformará em um imenso nada,
e depois haverá apenas silêncio.
antes que o mundo acabe,
e que a água do mar ou uma pedra do espaço me cale,
confesso: não fui santo nem demônio.
e como todos os outros animais racionais,
às vezes apenas uma espécie de macaco
quase todo pelado, arrogante e pretensioso.
às vezes ingênuo, buscando algum conforto
para conseguir habitar meu próprio corpo,
como habitam em si mesmos
os animais irracionais, livres e despudorados.
nunca dei nome aos meus sentimentos,
e embora já tenha vivido algumas ilusões,
hoje, perto do fim,
prefiro não fingir nenhum tipo
de felicidade ou tristeza,
porque nunca gostei de me dizer
triste ou feliz,
alegre ou melancólico...
tudo isso sempre foram códigos
que usamos para representar papéis.
em verdade, agora apenas esclareço:
o que sempre gostei foi de viver.

sábado, 15 de dezembro de 2012

VONTADE LOUCA DE VIVER FELIZ !


sábado, 17 de novembro de 2012


João Almeida

Quarta feira passada estava semeando, uma brisa suave passava fazendo graça, caí em mim e senti que eu estava feliz, por vários motivos, havia um sinalzinho de que eu poderia me sentir assim, feliz ! mas tambem pela obcessão que tenho de lutar sempre para estar feliz e de fazer a minha parte para a felicidade dos outros. Foi então que soltei a voz como quem queria mostrar ao mundo um sentimento. Comecei a cantar em plenos pulmões enquanto semeava, o meu canto se espalhou e pessoas prestaram atenção nos meus versos e se contagiaram, riram, e até me ajudaram na cantoria, houve quem dissesse que o meu canto alegrou  a tarde. As horas passaram e na quinta-feira eu estava completamente diferente, triste ! logo me lembrei de um livro que li  a uma década  atrás, de autoria da Condessa  de Ségur : JOÃO QUE CHORA, JOÃO QUE RI . Pois é,  eu sou um João assim, apesar de ter disponível na garganta o sorriso,  quando menos espero sou convidado a chorar.  Só não consigo entender  por que ? E não entendo por várias razões, mas prefiro  não discutir nenhuma,  é melhor....não alivia minha tristeza, mas poupa meu coração pois  a luta continua. Há algum tempo atrás, li um livro que comparava a vida a uma viagem de trem. Isso mesmo, a vida não passa de uma viagem de trem, cheia de embarques e desembarques, alguns acidentes, surpresas agradáveis em alguns embarques e grandes tristezas em outros. Quando nascemos, entramos nesse trem e nos deparamos com algumas pessoas que julgamos, estarão sempre nessa viagem conosco : nossos pais. Infelizmente, isso não é verdade; em alguma estação eles descerão e nos deixarão órfãos de seu carinho, amizade e companhia insubstituível... mas isso não impede que, durante a viagem, pessoas interessantes e que virão a ser super especiais para nós, embarquem. NO MEU TREM EMBARCOU UMA MORENA DE OLHOS MIUDOS, A QUEM DEDICO SEM PUDOR UM SENTIMENTO  QUE ENTENDO  MUITO MAIOR DO QUE AMOR, POIS VEJO  O  AMOR CONVENCIONAL  ÀS VEZES MUITO  MAL EMPREGADO  E QUE  NÃO TEM NADA  DO QUE  EU SINTO  POR MINHA MULHER. PORÉM ISSO SÓ NÃO BASTA....A VIDA ME COBRA O QUE TALVEZ EU NÃO TENHA COMO PAGAR, E ASSIM SIGO TENTANDO USUFRUIR DO DIREITO DE SER FELIZ.  
Mas vamos  a viagem do trem....
Muitas pessoas tomam esse trem apenas a passeio. Outros encontrarão nessa viagem somente tristezas. Ainda outros circularão pelo trem, prontos a ajudar a quem precisa. Muitos descem e deixam saudades eternas,  outros tantos passam por ele de uma forma que, quando desocupam seu acento, ninguém nem sequer percebe.
Curioso é constatar que alguns passageiros que nos são tão caros, acomodam-se em vagões diferentes dos nossos; portanto, somos obrigados a fazer esse trajeto separados deles, o que não impede, é claro, que durante o trajeto, atravessemos com grande dificuldade nosso vagão e cheguemos até eles... só que, infelizmente, jamais poderemos sentar ao seu lado, pois já terá alguém ocupando aquele lugar.
O fato é que  fui acometido por um"vuco-vuco"  na minha cabeça,  me vi feliz,  muito feliz e depois..... e nessa inconstância  perversa  me lembrei  de uma poesia que postei no meu blog  O CANTO DO TIÊ.

Não sei porque eu tô tão feliz
Não há motivo algum pra ter tanta felicidade
Não sei o que que foi que eu fiz
Se eu fui perdendo o senso de realidade
Um sentimento indefinido
Foi me tomando ao cair da tarde
Infelizmente era felicidade
Claro que é muito gostoso
Claro que eu não acredito
Felicidade assim sem mais nem menos é muito esquisito
Não sei porque eu tô tão feliz
Preciso refletir um pouco e sair do barato
Não posso continuar assim feliz
Como se fosse um sentimento inato
Sem ter o menor motivo
Sem uma razão de fato
Ser feliz assim é meio chato
MAS EU PLANTEI UMA FELICIDADE DE VERDADE, SÓ NÃO SEI  QUAL SERÁ A HORA DA COLHEITA .