Autor desconhecidosegunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Não importa
Autor desconhecidoNÃO SE ENGANE
Não se engane com meu olhar doce, nem com a minha mania de espremer os olhos, quase fotografando o vento. Sou simples, mas o coração é sofisticado. Guardo certas belezas invisíveis e a feiura de gente sem emoção não apetece a embriaguez de minhas mãos atrapalhadas. Sou o inverso que não acomoda a rotina, não tranquilizo, sou uma espécie de metamorfose, uma rosa quase espinho. Sou a faca que corta a mentira, sou o beco da neurose perdida na exatidão. Exagero no sentir, meu alicerce aguenta. Fui moldada no aço, mas flutuo feito pluma. Sou o blefe, nasci sem etiqueta pro comodismo. Não enceno, escrevo. O papel é minha jogada, histórias são meus pretextos contra os males do mundo.
Jogo o roteiro pra cima e corro pra pegar. Tenho pernas, mas ajo como se tivesse asas. Tenho pressa, mas prefiro chegar atrasada. Meu script é uma piada, minha vida é bem real.
A RUA SEM SAÍDA
Fiquei com tanta pena
Da rua sem saída que não tinha
Pra onde ir, caminho, esperança,
Que ali se acabava
Que ali se extinguia
Sem poder voltar ou começar do fim
Fiquei com tanta pena
Pelo tanto de nada naquilo tudo
Senti uma emoção pequena
De tonalidade serena
A manchar as paredes do meu coração
E são de tinta duas mãos
Ainda parado e perplexo por quase nada
Parou-se o tempo ao meu redor
Somente ali na rua sem saída
O trechinho de rua sem endereços
Nem o tempo lá ia, só o desprezo
Fiquei com tanta pena
Daquele pedaço de asfalto sozinho
Sem escutar nenhuma conversa
Quem dera um verso em desafino
Ou um jogo se bola, um encontro de amigos
Ou um beijo noturno, escondido do mundo
Nem início de surto, nem passarinho
Nem pra lá se vão os cachorros sem lar
E antes de alguma coisa falar, ninguém vi
Lá tem nada, nada, nada
Fiquei com tanta pena
EU DO MATO
João Almeida
Eu do mato!....
Mas índio que um próprio...
Sem relógio no pulso,
Quase nu...
Eu do mato!
Fugindo em disparada
De um índio tatuado!
Eu do mato!
Formiga! Umbaúba, cobra coral!
Borboleta, cansanção!
Eu do mato!
Catador de castanhas,
Plantador de feijão.
Eu do mato!
Cipó, vara de cambotá,
Jardins embaraçados
Flores de toda cor.
Eu no mato!
O sol nascendo
na palma da minha mão.
Chuvinha caindo, fininha
Engrossando fazendo mingau
Com a poeira do sertão.
Eu no mato!
Céu estrelado
Noites de escuridão,
Noites enluaradas,
Vento fresco de madrugada.
Eu do mato!
Voando com sabiás,
Gorjeiando como curió,
Viajando no piscar dos vagalumes...
Eu do mato!
Arco-iris de passarinhos,
Garças e urubus
Proteção nos olhos da coruja
Eu no mato!
Saudades e mais saudades
Do riacho, da beira do rio
Das ingazeiras e dos araçás.
Eu do mato!
O melhor da vida
Se passa lá..
Eu no mato!
Encontro Deus
Na sombra da mangueira,
Nas sombras de qualquer fruteira.
A Primeira Hora
De Fernanda de Castro ,
"O ano desfolhou-se, dia a dia,
como uma flor cortada, um girassol,
e dia a dia a sua voz calou-se
como velha cansada melodia
de velho rouxinol.
Ontem, à meia-noite, a minha rua
abriu de par em par as portas, as janelas,
e jogou fora o lixo, as coisas velhas:
cacos, farrapos, latas e panelas.
Era a Primeira Hora
do ano que chegava.
- E eu? - pensei - Que posso jogar fora?
Que poderemos todos jogar fora?
( ... )
Ah, Senhor, nesta hora de perdão,
nesta Primeira Hora,
quantas coisas podemos jogar fora!"
domingo, 1 de janeiro de 2012
SONETO MANSO COMO UM CARNEIRO AZUL
Meu irmãozinho Alberto anda sorrindo
Nas claras ruazinhas de algodão
Do bairro pobre, onde esqueceu, florindo,
Por descuido, quem sabe?, o coração,
Da janela o saúdo. O dia findo
Vem dormir enfadado em minha mão
De carícias de lã. É muito lindo
Ser bom assim, ninguém me diga não.
Troc... Troc... Seus passos na calçada
acordam meu chapéu de tinta gauche.
Retiro o riso da expressão cansada.
O que fazer? Reflito, desolado.
E o Alberto lá vai, talvez não ache
Seu pobre coração desmantelado
Esperança
Eu não mexia o braço e pensei: "e essa agora? Que devo fazer?"
Em verdade nada fiz.
Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim.
