sexta-feira, 5 de setembro de 2008
O AMOR IMPOSSÍVEL
quando deixo o meu amor impossível na rodoviária,
de noitinha, meus olhos compridos seguem-na até perdê-la
no turbilhão das gentes
imagino meu amor impossível na fila do ônibus, altiva,
altaneira, orgulhosa de si e de mais um dia de trabalho
os olhares em direção ao meu amor impossível são muitos
— olhares de cobiça como os meus (o olhar dos famintos)
alguém oferece ao meu amor impossível
um pastel, um caldo de cana ou um chocolate
hoje não, outro dia (meu amor impossível é educadíssima!)
meu amor impossível entra no ônibus, passa pela catraca
— o cobrador finge que separa o troco mas olha os seios do
meu amor impossível, de soslaio, exatamente como eu faço
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
Poemeu - A superstição é imortal
Millôr Fernandes
Quando eu era bem menino
Tinha fadas no jardim
No porão um monstro albino
E uma bruxa bem ruim.
Cada lâmpada tinha um gênio
Que virava ano em milênio
E, coisa bem mais perversa,
Sapo em rei e vice-versa.
Tinha Ciclope,Centauro,
Autósito, Hidra e megera,
Fênix, Grifo, Minotauro,
Magia, pasmo e quimera.
Mas aí surgiram no horizonte
Além de Custer e seus confederados
A tecnologia mastodonte
Com tecnologistas bem safados
Esses homens da ciência me provaram
Que duendes, bruxas e omacéfalos
Eram produtos imbecis de meu encéfalo.
Nunca existiram e nunca existirão:
uma decepção!
Mas continuo inocente, acho.
Ou burro, bobo, ou borracho.
Pois toda noite eu vejo todo dia
Tudo que é estranho, raro, ou anomalia:
Padres sibilas
Hidras estruturalistas
Ministros gorilas
Avis raras feministas
Políticos de duas cabeças
Unicórnios marxistas
Antropólogas travessas
Mactocerontes psicanalistas
Cisnes pretos arquitetos
Economistas sereias
Democratas por decreto
E beldades feias
Que invadem a minha caverna
E me matam de aflição
Saindo da lanterna
Da televisão.
terça-feira, 29 de julho de 2008
As minhas saudades....
João Almeida
Eu não troco minhas saudades por nada! Por este “agora”, por hoje nem pelo futuro!
Não troco a minha infância na roça, pela infância nos parques... As fruteiras pelos Fast food.
Não trocaria os trens (todos foram extintos) por metrôs do futuro. (ainda em construção em Salvador) Nem a Maria Fumaça eu trocaria.
Não trocaria meus professores com quadro-negro, pelos leves toques em teclas de controles e teclados.
Não trocaria o corredor da rua Chile pelos espaços de nenhum shoping. Não trocaria as vitrines do Adamastor, da casas Slloper, da Washi e etc , etc, etc.... Nem a Av. Sete, muito menos a Baixa dos Sapateiros também não trocaria.
Não trocaria o Cine Guarani, Tamoio, Exelsior, Liceu e o Cine Tupy por nenhum Multiplex.
Não trocaria as cadeiras de madeira do cine PAX nem do Jandaia onde assistir dois filmes de Cawboy custava pouco...
Não trocaria a Dama de Roxo, por nenhuma maluca solta por aí, quase em cada esquina.
Não trocaria o time do meu BAHIA de 59 pela seleção alemã, francesa nem italiana. Por esta seleção brasileira de hoje ?, mas de jeito nenhum... A minha saudade sabe o que está dizendo...
A minha saudade não troca a Fonte Nova só com o anel inferior por nenhum estádio do mundo. Quando não tinha dinheiro arranjava um lugarzinho no morrinho lá no Jardim Baiano de onde dava pra ver um bom pedaço do gramado. Naquela Fonte Nova, vibrei, chorei e até sofri. Assisti várias Olimpíadas Baiana da Primavera e que a minha saudade não trocaria nem pelas olimpíadas mundiais, espetaculares e com atletas que da gosto de vê na tv, superação de marcas a cada ano. Mas e os atletas da minha saudade? Simples, alunos jovens, uma geração com um perfil de quem infelizmente não ficou cópia .
Pela minha saudade da Praça da Sé, dos botecos das transversais estreitas, ligação com a Saldanha da Gama, eu não trocaria por nenhuma praça incravada nos shopings, espaços que se multiplicam muito bem organizados mas onde não se vê o lado humano. Se você não levar ou não tropeçar por acaso em algun conhecido, vai sentir falta das piadas de Ariovaldo, da voz afinada de Benigno, e das meninas exalando um perfume adocicado com sorrisos maliciosos .
A minha saudade debruçada diante da Bahia de Todos os Santos se fortalece com o mesmo mar, se o olhar for rasteiro, roçando as águas, ele está lá. Para o lado da Contorno existe uma obstrução que a minha saudade não gostaria que estivesse ali.
Não trocaria a minha saudade por nada...Não! não trocaria até a do nosso amor na juventude, Maria!
Só na Ribeira me senti como se ali estivesse aqueles tempos, tempos que ainda não precisava sentir saudades! Tudo lá é muito parecido com a Peníssula de antigamente.
Tudo muito novo, moderno, avançado... Mas como me dá saudade de tempos passados.... Nada tem a mesma cor, o mesmo cheiro, o mesmo sabor...
sábado, 26 de julho de 2008
CANÇÃO DE OUTONO
Cecília Meireles
Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o própro coração?
E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles
que não se levantarão...
Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...
Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o própro coração?
E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles
que não se levantarão...
Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...
quarta-feira, 9 de julho de 2008
VIRANDO PÁGINAS
João Almeida
terça feira, madrugada.
Lá vem eu!
Olha lá eu!
numa casa grande de corredor,
com quintal plantado,
e o rio Subauma
correndo lá no fundo.
Lá vem eu!
engatinhando pelos degraus,
pegando o corredor
até me pendurar
na grade da porta da frente.
O tempo passa,
e olha lá eu,
já do outro lado da porta
na sombra do tamarineiro.
O tempo passando,
e lá vai eu
subindo a rampa,
brincando na feira
e pulando vou descendo
pra rua de baixo.
Vejam! olha lá eu
mergulhando no pocinho...
---Menino! Tu vai pegar um resfriado!
Me enxugo no sol
e subo o morro dos araçás .
Agora já rapaz, olhem eu
atravessando a pinguela,
encontro incerto, ninguém por perto...
Lá vem eu!
Pegando o trem .
Daqui dá pra ver
minha felicidade
não veio na bagagem.
Olha lá eu!
desembarcando assustado,
seguindo para uma casa vazia,
morada dos outros, minha morada.
Olhem lá eu
expulso da morada dos outros
sem saber pra onde ir
com vontade de pegar o trem de volta.
Olhem eu ficando,
trabalhando, labutando,
encontrando o dia
depois de noites perdidas.
Olha lá eu!
Doente, julgado imprestável,
afastado...
Mas, olha lá eu!
recuperado, reintegrado.
Olha eu poeta!
pérolas e baboseiras
num círculo de sentimentos
arrancados pela sinceridade.
poemas perdidos, esquecidos
na verdade mortos...
Lá vem eu!
chorando, chorando, chorando...
Mas olha lá eu!
sorrindo, sorrindo, sorrindo.
Olhem! sou eu mesmo!
bêbado incompetente,
sem atitude, incoerente,
ficando diante de barcos que partem,
caminhando pelas praias desertas
e deserto.
Vejam! Olha lá eu!
engolindo sem vontade,
sóbrio numa roda alcoolizada.
Lá vem eu!
escorregando esperança abaixo,
julgado culpado sem culpa,
culpado absolvido.
Olha lá eu!
sem saber o que dizer,
falando pra valer palavras perdidas
e calado encontrando palavras
que nunca serão ditas.
Observem eu encontrando o sol!
escondido por trás de pesadelos
dos passos apressados da vida..
Olhem! Olha lá eu!
Se vocês prestarem bem atenção
Vão me ver sufocado
num espaço sem saída,
enquanto o tempo
muda a cor da vida
descolorindo o que deixei de viver.
Olha lá eu!
capengando de dor,
gemidos que não chegam
a nenhum ouvido.
Mas olha lá eu!
andando firme, corajoso,
olhem eu chegando,
olhem eu chegando!
chegando, chegando,
olhem eu aqui...
Salvador , 26/02/96.
domingo, 11 de maio de 2008
BOM DIA
João Almeida
Bom dia.
---bom dia!
abri o portão
e disse "bom dia!"
a caminho da padaria
"bom dia!"
seis pãezinhos , os mais moreninhos....
"bom dia!"
a menina do caixa
falou primeiro, "bom dia!"
O jornaleiro
joga o jornal por cima da grade
e diz : "bom dia!"
subo as escadas
a velha com preguiça
não abre a boca,
não responde meu "bom dia!"
Procura inútil...
não tem fósforo,
mas não importa,
eu quero um "bom dia!"
Digo ao velho
Descendo as escadas
"bom dia!"
"Bom dia!" responde
as sandálias do velho
se arrastando
pelos degraus.
"Bom dia!"
O homem da barraquinha
não responde,
apenas diz: trinta centavos!
Sacudo a caixa de fósforo
Batuco um sambinha
que diz: "bom dia"
Volto correndo
para o meu café,
risco o fósforo
com vontade de dizer
muito mais "bom dia!"
Enquanto a água esquenta
vou para janela
com vontade
de ter um "bom dia!"
quinta-feira, 20 de março de 2008
VOU EMBORA
Vou embora, vou embora eu aqui não fico mais...
Meus pés gritam por liberdade, já não conseguem fazer o show em cima dos saltos. Minhas mãos estão cansadas do toc toc das teclas. Minha pele reclama do perfume francês, quer o aroma que exala do patchulin nascido ao acaso, irrigado pelas águas que correm pelos regos despejadas dos canos. Meus olhos já não fotografam mais a beleza do concreto transformado em arte. Meu paladar rejeita o gosto do pão misturado com bicarbonato. Meu corpo cansou dos estofados macios forrados de tecidos fabricados por máquinas robóticas; clama pelo tapete verde da relva, que o embala ao som do rio que corre sem nunca parar em busca do seu puro e satisfeito gozo - a pororoca. Quero mesmo é sentar-me à tarde sob a copa das árvores para vê os meus amigos passarinhos brincarem, tomarem banho, gorjearem... E ao entardecer colocar um som bem cafona - de preferência sertanejo, daquelas duplas bem antigas como Milionário e José Rico - moda de viola, seresta, boleros, enfim tudo que fale de natureza ou romantismo.
Quero colocar a mão na terra, sorrir de felicidade com o desabrochar do primeiro botão de flor daquela plantinha, que cresceu cercada de tantos cuidados, de tanto amor. E os frutos suculentos das mangueiras, cajazeiras, goiabeiras, jambeiros, bananeiras, ateiras ... Que me perdoem as ervas-daninhas, mas nada mais gratificante que vê as hortaliças todas verdinhas, livres do abraço dessas danadas que sufocam e matam, a balançarem as folhas ao mínimo sinal de brisa, como se querendo dizer muito obrigada. É sublime!
Liberdade aqui? Que nada! Sucumbiu entre as paredes de um apartamento chaveado, gradeado, como se fossemos nós os animais, enquanto as bestas-feras andam livres fazendo vítimas e mais vítimas com seus instintos selvagens.
Vou embora, vou embora, eu aqui não fico mais...