sexta-feira, 4 de junho de 2010

NUM DIA MEIO TRISTE

Neste dia, o Recanto estava tão triste que deu dó de mim ao lembrar de tanta alegria desfilando no meu terreiro, tanta gargalhada na molequeira, na conversa fiada que quem desse mundo não estava lá não sabe o que perdeu. Mas o Recanto foi feito pra ser um pedaço diferente do mundo, e assim será....


João Almeida



A SOMBRA DAS QUATRO VEIO....

O VENTO E A BRISA TAMBÉM.

TRÊS BORBOLETAS AMARELAS

DANÇAVAM SOBRE O JARDIM,

E ENQUANTO NUVENS BRANCAS

SE ARRUMAVAM NO CÉU,

UMA ESQUADRILHA DE GARÇAS

CORTOU O MEU ESPAÇO,

FAZENDO PARECER SER ALI

UM DIA DE FESTA...



VINHERAM OS CARDEAIS,

AS ROLINHAS E OS TZIUS.

GIRANTES , CANÁRIOS DA TERRA,

SOFRÊS , SANHAÇOS E TIÊS.

AS SABIÁS JÁ ESTAVAM,

DESDE CEDINHO QUE CANTAM,

NÃO VINHERAM...MORAM AQUI.



VEM TANTA GENTE...

QUER DIZER, GENTE MESMO, NÃO...

MAS QUANDO SE ESTÁ SÓ,

UM MOSQUITINHO QUE SEJA

FAZ COMPANHIA...



VINHERAM AS FRUTAS...COMO QUE SAINDO,

DETRAZ DE UMA CORTINA DE FOLHAS,

SE APRESENTAM...

LIMAS, ARAÇÃS E MANGAS,

OLHEM LÁ UM CACHO DE ACEROLAS,

UM RAMO PRETINHO DE AMORAS...



MAS AÍ, VEIO UMA TRISTEZA

NOS VERSOS DE SEU ZÉ

QUE SÓ LABUTA CANTANDO

E ESTÁVA PERTO POR TRÁS DO BANANAL:



“MEU COQUEIRO DE TÃO ALTO,

JOGA CÔCO NA CIDADE.

MEU AMOR ALI TÃO PERTO,

E EU MORRENDO DE SAUDADE.’



TEM HORAS QUE NÃO SÃO FEITAS

PRA GENTE FICAR SÓ...

NÃO DOMINAMOS AS SENSAÇÕES,

MUITO MENOS....MUITO MENOS.....

AS SENSAÇÕES DOS OUTROS....

AMANHÃ PODE NÃO VIR O SOL,

E ENTÃO NÃO TEREMOS SOMBRA.

MAS NO SEU LUGAR,

ATÉ UMA CHUVA PODE VIR...

ANOITECER MAIS CEDO...

MESMO SÓ, EU VOU ESTAR AQUI.

domingo, 4 de abril de 2010

Tentação do Vaqueiro (Contos Sertanejos)

Saindo de um forró, lá na serra da remetedeira Zé Francisco preferiu ir a pé para casa, precisava arejar os pensamentos. Caminhou trôpego por aquelas estradas, onde não se via viva alma e cuja única luz, era da lua, coberta pela bruma que encobria o caminho. “Inda bem que num ta cheia!” pensou. Às vezes, aquele silêncio ensurdecedor do caminho era interrompido pelo canto dos grilos, outras vezes pelas corujas.
Em certo ponto da estrada, próximo a uma encruzilhada, avistou algo vermelho, como um pano, tremulando com o vento. Cismou, chegando mais perto pôde perceber que era uma mulher, encostada na cerca. Uma bela mulher loira de seios fartos, que aos olhos do caboclo parecia estar usando roupas de baile. Tudo combinando: vestido, batom e sapatos vermelhos. Achou aquilo tudo muito estranho. Aproximou-se.
―Moça... Quê que ta fazendo sozinha aqui... Num esquisito desse?
―Esperando por você!
―Pur mim? Mais... A sinhora me conhece?
−Quem é que não conhece o grande Zé Francisco? O caboclo mais valente de Santana do Ipanema?
− Grande é Deus moça!
−Mas você pode ser maior que Ele! Alias, pode tudo que quiser!
−Maió do que Deus nosso sinhô? Que cunversa é essa?
−Nosso não! Seu... Que por sinal, nem sabe que você existe!
−Peraí... Peraí! Eu num to entendendo o rumo desse prosa não! Quem é a sinhora?
−Eu sou aquela que pode lhe oferecer tudo o que você quiser! O inimaginável! Prazeres com os quais você nunca sonhou!
−Ói moça... Eu posso ta bêbo... Mais eu num sô burro! Isso daí... É a troco de quê?
− Quase nada! Pra começar, tire esse escapulário que você usa no pescoço!
− Meu escapulário? Não... Tem a image de minha madrinha sinhora Santana.
− É, onde estava sua madrinha quando seu cavalo foi esquartejado?
O caboclo engoliu um seco, parece que aquela mulher sabia onde apertar.
−A hora dele chegô... Como vai chegá a minha, Cuma qualqué vivente nessa terra!
−Não venha falar assim como não se importasse! Nós sentimos sua dor! Ouvimos seu desejo ardente de vingança! Além disso... Conhecemos seus desejos mais obscuros!
Estas últimas palavras, a dama misteriosa proferiu com um sorriso malicioso no rosto, acariciando a nuca do sertanejo.
− Renuncia a este Deus impiedoso que você segue! Nós lhe daremos poder para esmagar seus inimigos, traremos seu cavalo de volta. E Rosa... Ah, Rosa... Ela será toda sua! É pouco? Peça mais! É só dizer! Tudo o que você quiser está ao seu alcance!
− Nóis... Eu já intendi! Sai pra lá fia do capeta! Coisa ruim! Vai de retro! Vorta pros quinto dos inferno que é teu lugá! Sangue de Cristo tem podê!
Naquele momento, a mulher de vermelho começou a se contorcer, e emitir um som como se fosse um animal ferido. Depois sumiu, como se sugada pele terra, bem diante dos olhos de Zé Francisco, que caiu no chão na mesma hora.
Acordou novamente, desta vez foi desperto por um homem que segurava um candeeiro.
− Amigo... Você esta bem?
Lentamente o caboclo levantou a cabeça. Com um olho aberto e outro fechado encarou aquele homem. – baixe o candinhêro pr`eu vê sua cara!
O homem obedeceu.
− Louvado seja nosso Sinhô Jesus cristo! Falou o caboclo, desconfiado.
− Para sempre seja louvado! Deixe eu lhe ajudar, vou levar você para sua casa.
Zé Francisco nada respondeu, estava tão embriagado que mal conseguia andar. O homem do candeeiro apoiou o caboclo em seus ombros e o conduziu para casa. Durante o caminho o sertanejo puxou conversa.
− O sinhô num vai acreditá! Mais o diabo apareceu pra mim inda agorinha, na forma de uma muié! Me prometendo o mundo e o fundo!
− Eu acredito sim! Às vezes ele tenta testar as pessoas, principalmente as mais especiais!
− especiais? Eu num tenho nada de especial não seu moço... Só tenho o dia e a noite!
− Não diga isso! Você é especial para Deus! Ele sempre vai olhar por você! Por isso o outro lado sempre vai tentar abalar sua fé!
De repente os dois estavam diante da porta da casa de Zé Francisco
−Já?...Eí! Eu num tinha lhe falado onde era minha casa... Tinha?
O homem sorriu para ele e foi descendo a rua com seu candeeiro, até sumir na bruma.
−Crê em Deus pai todo poderoso!

quinta-feira, 4 de março de 2010

COISAS DA VIDA,MINHA NÊGA...

João Almeida

EU TINHA UMA CASA QUE NUNCA ESTEVE DE PORTAS FECHADAS...
NO MURO DA MINHA CASA NÃO TINHA CACO DE VIDRO...
NA MINHA CASA PERNOITOU VIAJANTES...
E QUANDO DE VOLTA DE VIAGENS PERDIDAS
SE ATIRARAM PELOS CANTOS DAS MINHAS NOITES
E CRUZARAM O CORREDOR DA MINHA PACIENCIA
QUANDO EU ACHAVA QUE JÁ O HAVIA PERDIDO.
ENTRARAM TANTOS , TANTO NA MINHA CASA ,
COMO NO MEU CORAÇÃO...
SAIRAM PELA MANHÃ SEM UM ATÉ LOGO,
DEIXANDO ALGUNS PACOTINHOS DE INGRATIDÃO...
MESMO ASSIM AINDA SENTI SAUDADES....
MESMO ASSIM AINDA SINTO SAUDADES
POR NADA TER SIDO COMO NA MINHA IMAGINAÇÃO.
VOEI
E NA VOLTA NÃO ACHEI MAIS O MEU NINHO...
VOEI ATOA, ATOA,
ATÉ NÃO PUDER MAIS...
ENTÃO POUSEI...SOB OS OLHOS ARREGALADOS
INDICANDO A MINHA ROTA DE VOLTA
ANTES DE ATÉ MESMO TER DESCANSADO.

“A Casa, que nunca fechou suas portas,
Era um sonho,
Era um recanto...
Mas hoje não se sente mais
O cheiro forte de café,
Nem do feijão safado...”.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Traduzir-se

Ferreira Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

EU SEI QUE TUDO PASSA!

Apesar do meu peito cheio das porcarias que o tempo me serviu enquanto eu estava tonto de tanto sonhar, faço um esforço para escrever, ler e ir vivendo, filosofando para me afastar do lago encantado que chama para o mergulho as desilusões. Ainda consigo esquecer de mim , “mim” que só tem eu para lembranças, exclusivamente para sangrar tristezas ao me ver responsável pelos desencontros dos meus, gerados do meu gozo mas principalmente da minha vontade. É uma tristeza que não tem como se avaliar o seu tamanho diante da pequenitude da importância que se dá à uma agonia implantada, e que portanto ninguém tem nada com isso.
Numa noite clara e enluarada, Nasrudim vai ao poço tirar água. Ao olhar para baixo, vê o reflexo da lua brilhando na água e na mesma hora diz:
- Nossa, coitada da lua, ela caiu dentro da água! Espere lua, que eu já vou tirá-la daí!
Nasrudim vai correndo até a sua casa e volta com uma corda com um gancho de ferro amarrado na ponta. Rápidamente atira a corda dentro do poço, gritando de forma encorajadora:
- Vamos lua, força, agarre firme que eu já puxá-la para fora daí!
Mas aconteceu que a corda ficou presa numa grande pedra no fundo do poço e Narudim precisou puxar com toda a sua força.
“Ufa!” – pensou Nasrudim com os seus botôes. “Mas como a lua é pesada!”
De repente, a corda se solta num tranco e Nasrudim cai de costas no chão.
Quando consegue recuperar o fôlego, ainda estendido no chão, ele se depara com a lua no céu, brilhando no meio das estrelas.
Então Nasrudim diz à lua:
- Não foi nada fácil, mas conseguimos, heim lua! Que sorte a sua eu ter chegado bem a tempo de poder ajudá-la! Foi um prazer estar a seu serviço.
Adeus lua, e boa noite!
EU GOSTARIA QUE A HARMONIA FOSSE LUA POR UM DIA E QUE EU CHEGASSE A TEMPO DE TIRA-LA DO POÇO.
JOÃO ALMEIDA

sábado, 31 de outubro de 2009

“Primavera” –

Cecília Meireles

"A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.
Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.
Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.
Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.
Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.
Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.
Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.
Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.
Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera."
Cecília Meireles

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

QUEM SOU EU?

João Almeida Santos

Quem sou eu seu moço?
Um aposentado!
despejado por aqui ha muitos anos atrás,
quando o frio cortava feito navalha
e eu vestido numa camisa"volta ao mundo",
e um monte de sonhos perdidos...
Quem sou eu seu moço?
Um aposentado....
Mas fui um equilibrista nos andaimes da vida,
pelejei, amei e quando já sabia ser filho
fui pai....fui pai...
Pai jovem, pai meia idade
E agora pai meio envelhecido...
E ainda querendo ser poeta!
Não quero a Academia Brasileira de Letras,
mas eu tenho meu tamborete no varandado da minha casa,
onde os sonhos que se apagam
me permitem versar sem rima,
a pergunta:
por que?