sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A ALMA NÃO PRECISA DE ÔMEGA 3

MIGUEL FALABELLA

As noites de insônia, em pleno verão que aprisiona a cidade na onda de calor, não costumam ser profícuas. Ao contrário, geralmente estendem-se lânguidas e vagarosas sobre a cama do estio, fitando o céu sem estrelas, à espera do dia seguinte. Há certas noites, como a de hoje, por exemplo, quando me sento para escrever a crônica, em que tudo é silêncio. Não há vento e a cidade parece ressentir-se do calor extremo. Não há nada, nem ninguém nas ruas. Na varanda, olho os mistérios do cosmo e penso no quão facilmente nos esquecemos de que nosso velho planeta não ocupa o centro dele.

Como se a razão entendesse Copérnico, mas a emoção continuasse rendida ao geocentrismo de Ptolomeu. Enfim, divagações solitárias madrugada adentro, frutos de uma mente que não consegue operar as inúmeras funções necessárias para que simplesmente eu consiga adormecer.

Deixei as estrelas e vim para o computador, onde naveguei um pouco, atrás da inspiração para a crônica. Buscando a palavra, a história ou a saudade que me tome pela mão e me leve ao mundo das palavras. Visitei alguns poetas de que gosto, outros que conheço pouco e que ainda quero conhecer. Deveríamos todos ler um poema por dia. As escolas deveriam iniciar seus trabalhos com um poema antes da maratona de aulas. Faz bem ao coração. Durante anos alimentei a fantasia de que as cidades deveriam operar emergências poéticas. Estabelecimentos que nos devolvessem a capacidade de sonhar e adivinhar novos mundos, e que existiriam em cada bairro, abertos noite e dia, devolvendo humanidade aos pacientes. Na falta desta utopia, a internet é uma boa opção para quem, como eu, gosta de visitar a poesia regularmente.

Enfim, já tarde, bem tarde, acabei visitando Christina Rossetti, poetisa romântica inglesa que nos deixou uma obra delicada, de devoção e entrega. Rossetti foi deixada de lado pela onda modernista, mas na décadade 70, o feminismo a trouxe de volta ao panteão das letras. Cometi a heresia de traduzir um soneto dela, porque senti vontade de dividi-lo com vocês e porque trabalhar me ajuda a atravessar a noite, sem a desagradável sensação de ser o único ser acordado na cidade. A tradução não é grande coisa, mas a intenção é das melhores. De modo que a última página de hoje, para os leitores, encerra-se com poesia e, nos dias que correm, acreditem, a poesia é tão importante como o ômega 3. O corpo vai deteriorar-se mais cedo ou mais tarde, mas as centelhas de inspiração avançam pelo tempo, como a luz acesa pelo poeta. Ao soneto, então:

Aqui pensando, em tudo o que perdi,
No que teria sido e jamais será,
Tua excelência vem me assegurar,
Que não sou merecedora de ti.

A mágoa é minha, que teimo em cair,
Que teimo em morrer, que teimo em deitar,
Querendo encolher, querendo chorar
Fitando a parede pra não mais fugir

E ainda assim, porque há esperança,
Rasgando a noite, o amor avança
E luta até que amanheça o dia,
Quando, enfim, esgotada, entrego o poder
E assisto a meu coração florescer,
Pronta a aceitar que por ti morreria.

Miguel Falabella é ator, diretor, dramaturgo e autor de novelas

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

UMA FLOR QUE VOA

Autor desconhecido.

"Borboleta parece flor que o vento tirou pra dançar"

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

FRUSTAÇÃO

João Almeida

Não faz sentido!
Estes dias,
que de tão parecidos
parecem um só...
longo e penoso.
Despercebidos
São os meus passos,
tontos e tortos...
que se arrastam
levando meu corpo cansado.
Não faz sentido!
O desperdício...
Amor que se esgota
ou se omite,
ou sei lá se existe.
Percebíveis,
são as vozes
que abandonam o canto
e a rima
destroçando sentimentos.
Não faz sentido!
As atitudes,
convivência arranhada,
no meio só de amigos, irmãos,
caboclos da mesma aldeia.
E se deu a partida!
Para trás,
O testemunho da vida...
Alfinetadas nos olhos
de muitos,
doce colírio nos olhos de poucos.
Não fazia sentido!
Ver crescimentos, amadurecimentos,
E os meus cabelos brancos
seguindo os passos
acelerados do tempo...
E por quanto tempo ?

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O NATAL VEM AÍ.

A.J.Faria



Será que vem mesmo?
Ou não será apenas mais uma oportunidade
para muitas luzes, muita música, muitas prendas,
e após tudo isso sentir um enorme vazio?
*
O Natal vem aí.
Será que vem mesmo?
Ou não será apenas mais uma oportunidade
para oferecer um pouco de pão aos carenciados,
e esquecê-los nos restantes dias do ano?
*
O Natal vem aí.
Será que vem mesmo?
Ou não será apenas mais uma oportunidade perdida
de nos reconciliarmos uns com os outros,
respeitando as diferenças de cada um?
*
O Natal vem aí.
Será que vem mesmo?
Ou não será apenas mais uma oportunidade em que as pessoas
se preocuparão em cumprir um ritual,
enfatizando o acessório em detrimento do essencial?

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Certidão

poema do Zélogueiro do jornal Correio Brasiliense

palavra
e montanha
também se gastam
como velas acesas,
se consomem aos poucos
se transformam em pó com o tempo
depois aparecem em outra forma
diferente: poeta, lixo, lodo, diamante.

A vida de quem vive para a palavra
é tonta, embrulhada, cheia de madrugadas,
não tem certeza de nada,
tragédia, conto de fadas.

Porque palavra
é sinônimo de alma
alma é sinônimo de asas
asas de bêbados,
que tocam em nuvens sem sair do lugar.
Asas do menino apaixonado
pela professora de literatura,
que escreve no banheiro da escola
o Soneto da Fidelidade
“que não seja imortal, posto que é chama”
e os amigos não entendem
os motivos daquele coração.

Palavra
anda no bolso
em guardanapos amassados,
em livros com letras de ouro,
em lábios finos...
Não tem morada certa,
dorme em qualquer lugar
acorda sempre para dois goles de vinho.

Para uns
palavra é ilusionismo,
mordida na nuca,
para outros
é concreto, ônibus lotado,
unha encravada,
mas de nada vale se ela não estiver
perfumada de vida.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

AINDA , AS MINHAS SAUDADES

João Almeida

Ontem num Shoping, minha filha convidou Maria para tomar um sorvete, numa barraquinha, num canto, quase na saída para o estacionamento. Se não fosse os adereços e cores da MC DONALD’S, poderia ser comparada a qualquer ponto de salgados que existem em cada canto da cidade. Enquanto a moça enchia copos de isopor mergulhei no lago das recordações, das minhas saudades....
Hoje não tomo mais sorvetes, não regularmente, como fazia na lanchonete da LOJAS BRASILEIRAS a LOBRÁS na Avenida Sete. Sorvete de umbu com salada de frutas, ou sorvete de qualquer outra fruta, mais sempre com salada , eles a minha saudade não troca pelos sundaes e mc-colossos dessa lanchonete americana, nem as AMERICANAS eu trocaria pelas LOJAS BRASILEIRAS. Enquanto sigo para casa as minhas saudades seguem outro rumo, primeiro se senta no balcão da CUBANA, na saída do Elevador Lacerda, ali não tomo sorvete, mas um guaraná espumante com bolinho de arroz. Ah! minha saudade! que perversidade me levar no pensamento para um cantinho tão bom.... Da CUBANA a minha saudade vai sentar na mesa do RESTAURANTE FLOR da SÉ e saboreia um bife com fritas. Alimentada, a minha saudade bate perna sob o viaduto da sé, segue pela Rua Rui Barbosa, e me leva novamente para a Avenida Sete e me empurra para dentro da MESBLA. Quem conheceu certamente sente falta, nada igual ainda não apareceu no comércio desta cidade. Saudades da MESBLA! Já que entrei pela Avenida Sete, a minha saudade me tira dali pela saída para a Rua Carlos Gomes e me bota sentado na última fila, numa aula de geografia no GINÁSIO do SERVIDOR PÚBLICO, onde o olhar sereno do professor Vicente dá uma volta na sala e sua voz firme diz: copiarrrrr.
Chego em casa e guardo minhas saudades...
Ah! Minhas saudades! Não troco vocês por nada, vocês estarão sempre bem guardadas no meu bauzinho.

Hoje eu abri meu bauzinho de lembranças...
Já abri outras vezes ...
numa manhã de sol, de chuva, de nada...
meu bauzinho que já abrir tantas vezes
posso nem querer abrir de novo,
pra não ficar triste com tantas diferenças....

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

A ÚLTIMA ENXADINHA DO MEU PAI

João Almeida

A última enxadinha do meu pai ainda existe. Capinei com ela , Maria também, até que o meu irmão resolveu transforma-la em peça de recordação, aliás atitude muito justa, assim ela foi pendurada num canto da sua casa do sítio. Quando decidi retornar às minhas origens, não pensei que iria remexer tanto com a terra, pois é a tarefa que me da mais prazer, então sigo horas capinando, chegando terra, fazendo “bunda suja”, cavando, plantando e colhendo, assim conheço todo tipo de mato, não gosto da expressão “erva daninha” tenho um certo respeito por elas, os meus olhos de “biólogo rude” enxergam mais além, mas não tem jeito, tenho que retira-las para abrir espaço para as plantações e depois mante-las fora da área por uma questão de reserva dos nutrientes que os meus pés de aipim e cia. precisam para desenvolver-se. O que o “biólogo rude” enxerga mais além são certos detalhes dos matos que nascem sem ninguém plantar e com uma rapidez extraordinária. A “Balaio de Veio” apesar do seu tamainho tem uma copa redonda com flores esféricas lilás, suponho que cada uma ocupe mais ou menos um metro quadrado. Já o “Canela de Anum” é o contrário, chega a mais de um metro, de caule fino amarronzado se assemelha a canela do pássaro que lhe empresta o nome. A Beldroega é um caso à parte, amanhece quietinha e nos primeiros raios do sol se enfeita de flores amarelas, colorindo o campo e recebendo as visitas de abelhas silvestres que nelas colhem a matéria-prima para fabricar doce mel.. Já vi na loja de produtos agrícolas “sachês” com sementes de Beldruegas pra ser plantada como hortaliça, mas pra que sementes se ela se multiplica aos milhares ?, e se não arrancar direito ela volta a viver sorrindo com suas flores . Tonho disse, que pra se livrar de Beldruega, só se arrancar, botar no carrinho de mão, abrir um buraco e enterrar. A abundante plantinha tem os talos cheio d´água e o melhor é que na Internet tem até receita de como preparar várias comidas com Beldruega. Ai se o povo da região levasse a sério estas notícias...enxada pra Beldruega nunca mais, até que o povo enjoasse da iguaria.. Ninguém por lá sabe, nem o meu vizinho Timba, meio curandeiro fazedor de garrafadas e chás, mas, a Beldruega é bom remédio nas afecções do fígado, bexiga e rins, o suco cura inflamações nos olhos, os talos e as folhas machucadas aliviam a dor das picadas de insetos e queimaduras e facilita a cicratização das feridas. Acho que vou ser um protetor das Beldruegas, a que eu arrancar eu planto noutro lugar e Balbina e Maria que se vire, quero Beldruega na mesa.
A variedade de plantas se eu pudesse catalogar seria muito extensa, o meu negócio mesmo é levar a vida capinando pois assim torno as minhas horas mais interessantes, uma mordidinha de formiga aqui, uma ferroada de maribondo ali, de vez em quando um susto com uma cobra coral e outras espécies, até que chegue quatro horas da tarde, horário definido para encerrar minhas atividades, assim sendo pego o caminho de casa, ou melhor, da sombra rendada da Sibipiruna, ou na da Mangueira que engatinhou até o jardim. Descalço as botas, e fico a esperar as visitas dos pássaros ouvindo as músicas que se dispersa pelo sítio saindo da vitrola moderna de Maria.(detesto os termos “home theater”.)..não se ajusta ao romantismo da hora muito menos ao gênero musical, tão poderoso que faz ela ter preguiça de descer da rede e vir me acompanhar no prazer visual do fim de tarde. Mas ela vem, como vem os Tiês, os Sanhaços, os Cardeais, Pegas, Bem-te-vis, Sabiás, Tzius,as rolinhas Fogo-pagô e Caldo de feijão, e tantos outros amigos de asas, e eu bebericando uma cervejinha até o dia começar escurecer.