segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Poemeu - A superstição é imortal

Millôr Fernandes


Quando eu era bem menino
Tinha fadas no jardim
No porão um monstro albino
E uma bruxa bem ruim.

Cada lâmpada tinha um gênio
Que virava ano em milênio
E, coisa bem mais perversa,
Sapo em rei e vice-versa.

Tinha Ciclope,Centauro,
Autósito, Hidra e megera,
Fênix, Grifo, Minotauro,
Magia, pasmo e quimera.

Mas aí surgiram no horizonte
Além de Custer e seus confederados
A tecnologia mastodonte
Com tecnologistas bem safados
Esses homens da ciência me provaram
Que duendes, bruxas e omacéfalos
Eram produtos imbecis de meu encéfalo.
Nunca existiram e nunca existirão:
uma decepção!

Mas continuo inocente, acho.
Ou burro, bobo, ou borracho.
Pois toda noite eu vejo todo dia
Tudo que é estranho, raro, ou anomalia:
Padres sibilas
Hidras estruturalistas
Ministros gorilas
Avis raras feministas
Políticos de duas cabeças
Unicórnios marxistas
Antropólogas travessas
Mactocerontes psicanalistas
Cisnes pretos arquitetos
Economistas sereias
Democratas por decreto
E beldades feias
Que invadem a minha caverna
E me matam de aflição
Saindo da lanterna
Da televisão.

terça-feira, 29 de julho de 2008

As minhas saudades....


João Almeida

Eu não troco minhas saudades por nada! Por este “agora”, por hoje nem pelo futuro!

Não troco a minha infância na roça, pela infância nos parques... As fruteiras pelos Fast food.

Não trocaria os trens (todos foram extintos) por metrôs do futuro. (ainda em construção em Salvador) Nem a Maria Fumaça eu trocaria.

Não trocaria meus professores com quadro-negro, pelos leves toques em teclas de controles e teclados.

Não trocaria o corredor da rua Chile pelos espaços de nenhum shoping. Não trocaria as vitrines do Adamastor, da casas Slloper, da Washi e etc , etc, etc.... Nem a Av. Sete, muito menos a Baixa dos Sapateiros também não trocaria.

Não trocaria o Cine Guarani, Tamoio, Exelsior, Liceu e o Cine Tupy por nenhum Multiplex.

Não trocaria as cadeiras de madeira do cine PAX nem do Jandaia onde assistir dois filmes de Cawboy custava pouco...

Não trocaria a Dama de Roxo, por nenhuma maluca solta por aí, quase em cada esquina.

Não trocaria o time do meu BAHIA de 59 pela seleção alemã, francesa nem italiana. Por esta seleção brasileira de hoje ?, mas de jeito nenhum... A minha saudade sabe o que está dizendo...

A minha saudade não troca a Fonte Nova só com o anel inferior por nenhum estádio do mundo. Quando não tinha dinheiro arranjava um lugarzinho no morrinho lá no Jardim Baiano de onde dava pra ver um bom pedaço do gramado. Naquela Fonte Nova, vibrei, chorei e até sofri. Assisti várias Olimpíadas Baiana da Primavera e que a minha saudade não trocaria nem pelas olimpíadas mundiais, espetaculares e com atletas que da gosto de vê na tv, superação de marcas a cada ano. Mas e os atletas da minha saudade? Simples, alunos jovens, uma geração com um perfil de quem infelizmente não ficou cópia .

Pela minha saudade da Praça da Sé, dos botecos das transversais estreitas, ligação com a Saldanha da Gama, eu não trocaria por nenhuma praça incravada nos shopings, espaços que se multiplicam muito bem organizados mas onde não se vê o lado humano. Se você não levar ou não tropeçar por acaso em algun conhecido, vai sentir falta das piadas de Ariovaldo, da voz afinada de Benigno, e das meninas exalando um perfume adocicado com sorrisos maliciosos .

A minha saudade debruçada diante da Bahia de Todos os Santos se fortalece com o mesmo mar, se o olhar for rasteiro, roçando as águas, ele está lá. Para o lado da Contorno existe uma obstrução que a minha saudade não gostaria que estivesse ali.

Não trocaria a minha saudade por nada...Não! não trocaria até a do nosso amor na juventude, Maria!

Só na Ribeira me senti como se ali estivesse aqueles tempos, tempos que ainda não precisava sentir saudades! Tudo lá é muito parecido com a Peníssula de antigamente.

Tudo muito novo, moderno, avançado... Mas como me dá saudade de tempos passados.... Nada tem a mesma cor, o mesmo cheiro, o mesmo sabor...

sábado, 26 de julho de 2008

CANÇÃO DE OUTONO


Cecília Meireles


Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o própro coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.


Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles
que não se levantarão...

Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...




Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o própro coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.


Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles
que não se levantarão...

Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...

Cecília Meireles

quarta-feira, 9 de julho de 2008

VIRANDO PÁGINAS

João Almeida


1949, 25 de maio,

terça feira, madrugada.

Lá vem eu!

Olha lá eu!

numa casa grande de corredor,

com quintal plantado,

e o rio Subauma

correndo lá no fundo.



Lá vem eu!

engatinhando pelos degraus,

pegando o corredor

até me pendurar

na grade da porta da frente.



O tempo passa,

e olha lá eu,

já do outro lado da porta

na sombra do tamarineiro.



O tempo passando,

e lá vai eu

subindo a rampa,

brincando na feira

e pulando vou descendo

pra rua de baixo.



Vejam! olha lá eu

mergulhando no pocinho...

---Menino! Tu vai pegar um resfriado!

Me enxugo no sol

e subo o morro dos araçás .



Agora já rapaz, olhem eu

atravessando a pinguela,

encontro incerto, ninguém por perto...



Lá vem eu!

Pegando o trem .

Daqui dá pra ver

minha felicidade

não veio na bagagem.



Olha lá eu!

desembarcando assustado,

seguindo para uma casa vazia,

morada dos outros, minha morada.



Olhem lá eu

expulso da morada dos outros

sem saber pra onde ir

com vontade de pegar o trem de volta.



Olhem eu ficando,

trabalhando, labutando,

encontrando o dia

depois de noites perdidas.



Olha lá eu!

Doente, julgado imprestável,

afastado...



Mas, olha lá eu!

recuperado, reintegrado.



Olha eu poeta!

pérolas e baboseiras

num círculo de sentimentos

arrancados pela sinceridade.

poemas perdidos, esquecidos

na verdade mortos...



Lá vem eu!

chorando, chorando, chorando...

Mas olha lá eu!

sorrindo, sorrindo, sorrindo.



Olhem! sou eu mesmo!

bêbado incompetente,

sem atitude, incoerente,

ficando diante de barcos que partem,

caminhando pelas praias desertas

e deserto.



Vejam! Olha lá eu!

engolindo sem vontade,

sóbrio numa roda alcoolizada.



Lá vem eu!

escorregando esperança abaixo,

julgado culpado sem culpa,

culpado absolvido.



Olha lá eu!

sem saber o que dizer,

falando pra valer palavras perdidas

e calado encontrando palavras

que nunca serão ditas.




Observem eu encontrando o sol!

escondido por trás de pesadelos

dos passos apressados da vida..



Olhem! Olha lá eu!

Se vocês prestarem bem atenção

Vão me ver sufocado

num espaço sem saída,

enquanto o tempo

muda a cor da vida

descolorindo o que deixei de viver.



Olha lá eu!

capengando de dor,

gemidos que não chegam

a nenhum ouvido.



Mas olha lá eu!

andando firme, corajoso,

olhem eu chegando,

olhem eu chegando!

chegando, chegando,

olhem eu aqui...



Salvador , 26/02/96.

domingo, 11 de maio de 2008

BOM DIA



João Almeida


Bom dia.

---bom dia!

abri o portão

e disse "bom dia!"

a caminho da padaria

"bom dia!"

seis pãezinhos , os mais moreninhos....

"bom dia!"

a menina do caixa

falou primeiro, "bom dia!"

O jornaleiro

joga o jornal por cima da grade

e diz : "bom dia!"

subo as escadas

a velha com preguiça

não abre a boca,

não responde meu "bom dia!"

Procura inútil...

não tem fósforo,

mas não importa,

eu quero um "bom dia!"

Digo ao velho

Descendo as escadas

"bom dia!"

"Bom dia!" responde

as sandálias do velho

se arrastando

pelos degraus.

"Bom dia!"

O homem da barraquinha

não responde,

apenas diz: trinta centavos!

Sacudo a caixa de fósforo

Batuco um sambinha

que diz: "bom dia"

Volto correndo

para o meu café,

risco o fósforo

com vontade de dizer

muito mais "bom dia!"

Enquanto a água esquenta

vou para janela

com vontade

de ter um "bom dia!"


quinta-feira, 20 de março de 2008

VOU EMBORA

Margarida Almeida


Vou embora, vou embora eu aqui não fico mais...
Meus pés gritam por liberdade, já não conseguem fazer o show em cima dos saltos. Minhas mãos estão cansadas do toc toc das teclas. Minha pele reclama do perfume francês, quer o aroma que exala do patchulin nascido ao acaso, irrigado pelas águas que correm pelos regos despejadas dos canos. Meus olhos já não fotografam mais a beleza do concreto transformado em arte. Meu paladar rejeita o gosto do pão misturado com bicarbonato. Meu corpo cansou dos estofados macios forrados de tecidos fabricados por máquinas robóticas; clama pelo tapete verde da relva, que o embala ao som do rio que corre sem nunca parar em busca do seu puro e satisfeito gozo - a pororoca. Quero mesmo é sentar-me à tarde sob a copa das árvores para vê os meus amigos passarinhos brincarem, tomarem banho, gorjearem... E ao entardecer colocar um som bem cafona - de preferência sertanejo, daquelas duplas bem antigas como Milionário e José Rico - moda de viola, seresta, boleros, enfim tudo que fale de natureza ou romantismo.
Quero colocar a mão na terra, sorrir de felicidade com o desabrochar do primeiro botão de flor daquela plantinha, que cresceu cercada de tantos cuidados, de tanto amor. E os frutos suculentos das mangueiras, cajazeiras, goiabeiras, jambeiros, bananeiras, ateiras ... Que me perdoem as ervas-daninhas, mas nada mais gratificante que vê as hortaliças todas verdinhas, livres do abraço dessas danadas que sufocam e matam, a balançarem as folhas ao mínimo sinal de brisa, como se querendo dizer muito obrigada. É sublime!
Liberdade aqui? Que nada! Sucumbiu entre as paredes de um apartamento chaveado, gradeado, como se fossemos nós os animais, enquanto as bestas-feras andam livres fazendo vítimas e mais vítimas com seus instintos selvagens.
Vou embora, vou embora, eu aqui não fico mais...

sábado, 16 de fevereiro de 2008

COMPORTAMENTO

Ruy Maurity

Composição: Ruy Maurity / José Jorge

Já não tenho guardado comigo
O antigo brinquedo
Que durante um bom tempo da vida
Só me deu prazer.
Nem por isso estou menos contente ou desencantado.
Aprendi que a vida tem mesmo que acontecer...

Já não tenho vergonha
Das roupas usadas que eu ganho.
Não confiro o troco
É pouco o que tenho a perder.
Cada um traz no bolso a chave do mesmo tamanho.
Descobri que sei tanto de mim quanto sei de você...

Sim, é verdade muito embora difícil de crer,
Eu troquei meu passado por nada,
Pois cansei de brincar de esconder.
Não esquento a cabeça, não ligo,
Se o que foi poderia não ser
O presente nascendo comigo,
Toda vez que eu olho pra ver...