segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Crônica de uma quarta-feira comum

Do blogão do Zé (Folha de São Paulo)

A Henry Chinaski

Hoje é mais uma das quartas-feiras que enfrento na maior ressaca e muita preguiça. Nenhuma nuvem no céu. Nenhuma nuvem no meu coração, ressequido e triste como um saco plástico de supermercado à beira de uma estrada empoeirada que não leva a lugar nenhum. A água gelada do chuveiro tenta me ressuscitar. Preciso trabalhar.

Rasguei os poemas bêbados feitos de madrugada, escrevi-os com a caneta tonta da melancolia. Ah! Estou relendo Crônicas de um Amor Louco, de Charles Bukowsky. Depois de 28 anos, pego o livro de volta e viajo com o velho bêbado, lírico e ácido. Certa vez, meu irmão, Paulo César Cascão, depois de sorver um gole de um bom vinho alentejano, usou do seu ferino humor e soltou essa: "Não posso ler Bukowsky porque tenho medo do Detran". Mas eu não estou nem aí. Sigo com minha poesia e meus vícios.

Me enxugo e estou refeito para o trabalho. Só o coração continua apertado, deve ser por causa da Lua cheia que se aproxima — dia 16 é Lua gorda, mermão!

O trânsito parado testa o meu humor. Fecho os vidros e aumento o som do rádio para não xingar ninguém, nenhum panaca que insiste em ser mais esperto que os outros. E o rádio toca Chico:

Mesmo que os cantores sejam falsos como eu

serão bonitas, não importa

são bonitas as canções

mesmo miseráveis os poetas

os seus versos serão bons

mesmo porque as notas eram surdas

quando um deus sonso e ladrão

fez das tripas a primeira lira

que animou todos os sons

e daí nasceram as baladas

e os arroubos de bandidos como eu

cantando assim:

você nasceu para mim

você nasceu para mim

mesmo que você feche os ouvidos

e as janelas do vestido

minha musa vai cair em tentação

mesmo porque estou falando grego

com sua imaginação

mesmo que você fuja de mim

por labirintos e alçapões

saiba que os poetas como os cegos

podem ver na escuridão

e eis que, menos sábios do que antes

os seus lábios ofegantes

hão de se entregar assim:

me leve até o fim

me leve até o fim

mesmo que os romances sejam falsos como o nosso

são bonitas, não importa

são bonitas as canções

mesmo sendo errados os amantes

seus amores serão bons

Choro Bandido, diz o locutor. Esse é o nome da música que Chico Buarque e Edu Lobo fizeram para a peça O Corsário do Rei, de Augusto Boal, em 1965. Por um instante vejo o rosto dela na silhueta de um táxi. Ela, a mira dos meus poemas, nem sabe que estou aqui, nesse engarrafamento, de ressaca, cansado, indo para o trabalho, uma formiga tosca e inútil no meio do Planalto Central. Acelero, o pardal me multa. Mesmo assim, chego atrasado no trabalho. A música de Chico não me sai da cabeça…

sábado, 25 de julho de 2009

LONAS AZUIS

RAUL GIL


No caminho da sorte,
A alma perdi,
Dei um beijo na morte,
E sobrevivi,
Mas perdi o meu medo,
A viver aprendi...

Fiz do mundo meu palco,
Do sol minha luz,
Pra fazer o meu circo,
Usei minha cruz,
De um pedaço de céu,
Fiz as lonas azuis,
Do céu, eu fiz, as lonas azuis,
Do céu, eu fiz, as lonas azuis.

Aprendi que nem sempre,
É feliz quem procura,
Que a vida mais fácil,
Também é a mais dura,
Que a estrada mais curta,
É também mais escura.

Fiz do mundo meu palco,
Do sol minha luz,
Pra fazer o meu circo,
Usei minha cruz,
De um pedaço de céu,
Fiz as lonas azuis,
Do céu, eu fiz, as lonas azuis,
Do céu, eu fiz, as lonas azuis.

Aprendi na descida,
Mais forças ganhar,
Pra chegar na subida,
E não desanimar,
Sou na vida um artista, ganhei meu lugar.

Fiz do mundo meu palco,
Do sol minha luz,
Pra fazer o meu circo,
Usei minha cruz,
De um pedaço de céu,
Fiz as lonas azuis.

Do céu, eu fiz, as lonas azuis,
Do céu, eu fiz, as lonas azuis,
Do céu, eu fiz, as lonas azuis,
Do céu, eu fiz, as lonas azuis....

quarta-feira, 22 de julho de 2009

ASSIM VOU EU

Paty Padilha



Assim vou eu...
Dobrando minhas esquinas,
Aguçando meus sentidos.
Escrevendo meus poemas,
Criando meus laços, Apertando meus nós,
Alimentando minhas fantasias,
Aperfeiçoando meus traços,
Aquietando minh’alma,
Curando minhas feridas,
Desviando das pedras do meu caminho,
Admitindo meus erros,
Ateando minhas velas,
Traçando minhas retas,
Vasculhando minhas gavetas,
Ostentando meus amores,
Engrandecendo meus sentimentos,
Apurando meus gostos,
Amadurecendo minha vida,
Eu vou...

sábado, 18 de julho de 2009

PASSOS NA REALIDADE

João Almeida

Há quem diga o bom,
e quem,
o ruim pra mim,
enfim há quem me esqueceu
mas tem quem se lembre
de mim.
Existem as minhas besteiras,
mas espalhei pegadas firmes,
apaguei incêndios,
mas ascendi fogueiras,
espantei o frio,
fugi da chuva
mas mergulhei no rio.
Já me calei, só fiz ouvi
E já cantei só pra mim.
Enfim, os dias são assim.
Quando nem...
Lá estão as estrelas bailarinas
na escuridão do verão
chamando a atenção
para o mais bonito dos céus...
Quando não...
em qualquer ocasião
pingam tristezas
por quanto , em qualquer canto.
Mas há quem viva
a vida inteira,
e o dito bem dito pelo poeta?
Há quem passe pelo bosque
E só veja lenha para a fogueira...

terça-feira, 14 de julho de 2009

SAUADADES DE GABRIEL


João Almeida

GABRIEL!
Nome dado por minha neta Carol a um galo muito especial. Nasceu só, a ninhada esperada não vingou, todos os ovos “goraram” menos o que lhe envolvia. Assim desde pequenininho me deu trabalho, fugia do galinheiro, embrenhava-se pelo mato e eu tropeçando atrás. Foi crescendo formando a plumagem que brilhava parecendo ouro e por fim se fez dono do terreiro, autoritário e garanhão. Os outros galos eram subordinados, só comiam depois da sua permissão, só faziam amor se ele estivesse desatento, caso contrário derrubava o rival das costas das galinhas, ele porem, passava o tempo cobrindo as meninas. Um galo e tanto esse GABRIEL. Mas o tempo passa, até para os bichos ele impõe marcas. Cheguei no sítio e fui jogar uma mão de milho e encontrei GABRIEL acocorado. Onde já se viu um galo como GABRIEL agachado. Quando os caroços de milho se espalharam no piquete ele veio comer, achei extranho suas passadas algo errado estava acontecendo, o meu colaborador estava diferente, parecia bem doente. Procurei informações e disseram que era uma perna que estava doente. Passaram se os dias e viajei para buscar minhas netas para passar as férias de junho no sítio e no retorno como sempre faço fui olhar o galinheiro, jogar uma mão de milho e então retrocedi, não abri a mão , abri bem os olhos e então vi Gabriel estirado, morto. Corri e contei a Maria e procurei esconder das meninas e fui providenciar enterrar o amigo GABRIEL.
O galinheiro continua no sítio, mas está muito diferente, nunca mais será o mesmo sem GABRIEL.

Sitio do Meio 2 de julho de 2009.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

POR QUE?

João Almeida

Você!
horas me ajudas a subir.
Noutras
me empuras ladeira abaixo.

Horas me beijas,
noutras
me apedrejas...

Horas me faz sorrir
noutras
me faz chorar.

Horas me faz seguir
noutras
a desistir

Horas me queres tanto
noutras
nem tanto

Pois horas diz:
te amo! te amo! te amo!
Noutras parece odiar

As vezes penso....
Tantos anos e eu não aprendi
não aprendi nada sobre
amar,

Agora envelhecido,
Fechei meu caderno
Não tenho mais o que apontar.

O engano de tantos anos
aos meus sentimentos
não sei que nome dar.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

ALMAS PERFUMADAS

CARLOS DRUMMOND ANDRADE



Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta.
De sol quando acorda.
De flor quando ri.
Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede
que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem
agenda.
Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça.
Lambuzando o queixo de sorvete.
Melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que
tem pra escolher.
O tempo é outro.
E a vida fica com a cara que ela tem de verdade,
mas que a gente desaprende de ver.
Tem gente que tem cheiro de colo de Deus.
De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul.

Ao lado delas,
a gente sabe que os anjos existem e que alguns são
invisíveis.
Ao lado delas,
a gente se sente chegando em casa e trocando o salto
pelo chinelo.
Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem
não liga pra isso.

Ao lado delas, pode ser abril, mas parece manhã de Natal
do tempo em que a gente acordava
e encontrava o presente do Papai Noel.

Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu
no céu e daquelas que conseguimos acender na Terra.

Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a
gente tem certeza.

Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito
de alegria.
Recebendo um buquê de carinhos.
Abraçando um filhote de urso panda.
Tocando com os olhos os olhos da paz. 22/10/08 Bell...***
Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave que sua
presença sopra no nosso coração.
Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa.
Do brinquedo que a gente não largava.
Do acalanto que o silêncio canta.
De passeio no jardim.

Ao lado delas,
a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de
dentro e que a atração que realmente nos move não passa só
pelo corpo.
Corre em outras veias.
Pulsa em outro lugar.

Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos,
Deus está conosco, juntinho ao nosso lado.
E a gente ri grande que nem menino arteiro.
Tem gente como você que nem percebe como tem a alma
Perfumada!
E que esse perfume é dom de Deus.