segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

EXPLICANDO A ÁGUA

Albano Martins
Eanger Irving Couse - Watching For Game



Levarás
pela mão
o menino
até ao rio. Dir-lhe-ás
que a água é cega
e surda. Muda,
não. Que o digam
os peixes, que em silêncio
com ela sustentam
seu diálogo
líquido, de líquidas
sílabas
de submersas
vogais. 

Albano Martins

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Orfandade




Adélia Prado


“Meu Deus,
me dê cinco anos.
Me dê um pé de fedegoso com formiga preta,
me dê um Natal e sua véspera,
o ressonar das pessoas no quartinho.
Me dê a negrinha Fia pra eu brincar,
me dê uma noite pra eu dormir com minha mãe.
Me dê minha mãe, alegria sã e medo remediável,
me dá a mão, me cura de ser grande.
Ó meu Deus, meu pai,
meu pai”.

A PINTORA

Adélia Prado
Waterhouse -The Orange Gatherer
Hoje de tarde
pus uma cadeira no sol pra chupar tangerinas
e comecei a chorar,
até me lembrar de que podia
falar sem mediação com o próprio Deus
daquela coisa vermelho-sangue, roxo-frio, cinza.
Me agarrei aos seus pés:
Vós sabeis, Vós sabeis,
só Vós sabeis, só Vós.
O bagaço da laranja, suas sementes
me olhavam da casca em concha
na mão seca.
Não queria palavras pra rezar,
bastava-me ser um quadro
bem na frente de Deus
pra Ele olhar. 

LIBERDADE


Nos meus cadernos de escola
Nesta carteira nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome
Em toda página lida
Em toda página branca
Pedra sangue papel cinza
Escrevo teu nome
Nas imagens redouradas
Na armadura dos guerreiros
E na coroa dos reis
Escrevo teu nome
Nas selvas e no deserto
Nos ninhos e nas plantas
No céu da minha infância
Escrevo teu nome
Nas maravilhas das noites
No pão branco da alvorada
Nas estações enlaçadas
Escrevo teu nome
Nos meus farrapos de azul
No tanque sol que mofou
No lago lua vivendo
Escrevo teu nome
Nas campinas do horizonte
Nas asas dos passarinhos
E no moinho das sombras
Escrevo teu nome
Em cada sopro de aurora
Na água do mar nos navios
Na serrania demente
Escrevo teu nome
Até na espuma das nuvens
No suor das tempestades
Na chuva insípida e espessa
Escrevo teu nome
Nas formas resplandecentes
Nos sinos das sete cores
E na física verdade
Escrevo teu nome
Nas veredas acordadas
E nos caminhos abertos
Nas praças que regurgitam
Escrevo teu nome
Na lâmpada que se acende
Na lâmpada que se apaga
Em minhas casas reunidas
Escrevo teu nome
No fruto partido em dois
de meu espelho e meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo teu nome
Em meu cão guloso e meigo
Em suas orelhas fitas
Em sua pata canhestra
Escrevo teu nome
No trampolim desta porta
Nos objetos familiares
Na língua do fogo puro
Escrevo teu nome
Em toda carne possuída
Na fronte de meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo teu nome
Na vidraça das surpresas
Nos lábios que estão atentos
Bem acima do silêncio
Escrevo teu nome
Em meus refúgios destruídos
Em meus faróis desabados
Nas paredes do meu tédio
Escrevo teu nome
Na ausência sem mais desejos
Na solidão despojada
E nas escadas da morte
Escrevo teu nome
Na saúde recobrada
No perigo dissipado
Na esperança sem memórias
Escrevo teu nome
E ao poder de uma palavra
Recomeço minha vida
Nasci pra te conhecer
E te chamar

Liberdade
Paul Éluard (1895-1952)

Carnaval

Caetano Veloso
Richard Geiger

Você é meu caminho
Meu vinho, meu vício
Desde o início estava você

Meu bálsamo benígno
Meu signo, meu guru
Porto seguro onde eu voltei

Meu mar e minha mãe
Meu medo e meu champagne
Visão do espaço sideral

Onde o que eu sou se afoga
Meu fumo e minha ioga
Você é minha droga
Paixão e carnaval

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

atalhos...

Martha Medeiros


Quanto tempo a gente perde na vida? Se somarmos todos os minutos jogados fora, perdemos anos inteiros. Depois de nascer, a gente demora pra falar, demora pra caminhar, aí mais tarde demora pra entender certas coisas, demora pra dar o braço a torcer. Viramos adolescentes teimosos e dramáticos. Levamos um século para aceitar o fim de uma relação, e outro século para abrir a guarda para um novo amor, e já adultos demoramos para dizer a alguém o que sentimos, demoramos para perdoar um amigo, demoramos para tomar uma decisão. Até que um dia a gente faz aniversário. 37 anos. Ou 41. Talvez 48. Uma idade qualquer que esteja no meio do trajeto. E a gente descobre que o tempo não pode continuar sendo desperdiçado. 

Fazendo uma analogia com o futebol, é como se a gente estivesse com o jogo empatado no segundo tempo e ainda se desse ao luxo de atrasar a bola pro goleiro ou fazer tabelas desnecessárias. Que esbanjamento. Não falta muito pro jogo acabar. É preciso encontrar logo o caminho do gol. Sem muita frescura, sem muito desgaste, sem muito discurso. Tudo o que a gente quer, depois de uma certa idade, é ir direto ao assunto. Excetuando-se no sexo, onde a rapidez não é louvada, pra todo o resto é melhor atalhar. E isso a gente só alcança com alguma vivência e maturidade. Pessoas experientes já não cozinham em fogo brando, não esperam sentados, não ficam dando voltas e voltas, não necessitam percorrer todos os estágios. Queimam etapas. Não desperdiçam mais nada. 

Uma pessoa é sempre bruta com você? seja carinhosa com ela. O cara está enrolando muito? Beije-o primeiro. A resposta do emprego ainda não veio? Procure outro enquanto espera. 

Paciência só para o que importa de verdade. Paciência para ver a tarde cair. Paciência para sorver um cálice de vinho. Paciência para a música e para os livros. Paciência para escutar um amigo. Paciência para aquilo que vale nossa dedicação...

SONHOS E REALIDADE


(AD)


O sonho tem pupilas dilatadas, cílios longos e a íris colorida sempre pintando a realidade com tons mais vibrantes, basta o silêncio e ele vem como uma música, orquestrando as histórias guardadas, interrompidas, mas jamais esquecidas. Eu tenho sorrisos estampados no vestido e, nos meus olhos, um mar aberto, pronto para viagens, porque a vida é um milagre. O tudo e o nada caminham de mãos dadas. Tudo pode acontecer no intervalo entre essas duas notas, é como se fosse o nascimento e a morte, e, bem no meio, a vida, sim, porque não basta nascer para se estar vivo. É preciso mais que isto, mais que um coração batendo, é preciso ter a alma pulsando e um guerreiro sempre pronto para a travessia. No espaço entre essas duas notas pode caber uma sinfonia, para quem traz nas mãos a batuta do sonho. Delirar é preciso, nesse sobreviver impreciso. Ainda que me roubem horizontes, reinvento outros, acendendo o sol na escuridão mais profunda do mar, que sou eu mesma. E o oceano, enfim, vira uma grande lamparina a clarear os sertões da alma. Tenho reservas de água, líquida e cristalina, cristais de luz que algumas sombras tentam me furtar. Mas sempre escapo, escorrendo entre as fendas, essas pequenas fissuras que atravessam a realidade e tornam a vida possível, despressurizando o insuportável dos dias. Esse intervalo não é uma pausa, ao contrário, é cheio de música. É quando saímos de cima do muro, cansados de esperar respostas. A resposta só eu mesma posso me dar, ela está em mim, no durante. Eu sou a ecoante pergunta e a misteriosa resposta. O início, o fim e o meio. Falta-me, talvez, coragem. Então, as fendas me arrastam em suas correntezas, e, de surpresa, me dizem – vai!– E, sem tempo pra pensar, eu vou, pois só a surpresa pode devolver-me manhãs fresquinhas com gostinho de morangos em calda. E eu quero me lambuzar inteira, desse presente que a vida me dá, de repente. Não desperdiço nada, já bastam os desperdícios no mundo, tanta escassez de tudo.

Até mesmo o amor, que deveria ser o maior presente para todos os dias, tornou-se ameaça, pois não queremos perder o controle, o poder, e amar, nos torna vulneráveis. Amar é bicho perigoso, nessa Atlântida que os homens construíram, é uma ameaça à manutenção de suas geleiras, pois o amor é incandescente! Enquanto o colocamos em cubos de gelo, a indiferença superaquece as esquinas das cidades, onde a fome escancara um sorriso sem dentes, e a gente preparando banquetes para celebrar o nascimento de Cristo, símbolo de fraternidade. Contraditório demais tudo isso. Não observamos que as pessoas mais felizes não têm as melhores coisas, mas fazem com o que possuem uma grande festa, uma celebração! Não quero receber nada, quero, apenas, me ofertar inteira, ao menos enquanto durar esse pequeno intervalo, onde cabe a eternidade. A eternidade acontece, quando não temos compromisso com o tempo. Mas os relógios dos homens tentam controlar os destinos, marcando horários para tudo. Dormimos pouco, talvez para que sonhemos menos. Contudo, para quem tem a batuta nas mãos, o sonho torna-se real a cada movimento, a cada nota que vai compondo a melodia dos dias. Sonho com olhos bem abertos! Acho que é por isso que me dizem que eles sempre parecem estar contando algo, olhos que saltam no escuro das coisas, pois sabem que no fundo de tudo existe luz. Até mesmo no fundo da alma do pior algoz, há uma dor que o fragiliza em algum ponto. Ser humano é isso, ser o herói e o carrasco de si mesmo, a luz e a escuridão, o começo e o fim. Contudo, o “ás” desse jogo está no meio, na metamorfose. Entre a crisálida e a borboleta está o segredo para os futuros vôos. Em essência, somos almas, e almas são encantamentos, nunca terminam, atravessam o espaço e constroem pontes sem ao menos se tocar, porém são capazes de sentir cheiros e gostos das coisas à distância, até mesmo amar, pois o amor acontece no etéreo, puro mistério, amor é surpresa.

Milagre? O ser humano é um milagre, é uma promessa, e promessas não cumpridas machucam. Não posso desistir. Farei tentáculos dos meus sentidos, e agarrarei a vida luminosa no fundo da escuridão do mar. Mergulharei no espelho, até que desapareça a imagem, e descobrirei que, por dentro, tenho o sertão, mas, também, a água, sempre em movimento, que é a alma. Se tentarmos represá-la, os tsunamis acontecerão por dentro de nós. Então, pinto os olhos do medo de azul da cor do mar, prontos para a onda que pintar! Contudo, o meio, onde são guardados os segredos, será pintado de vermelho: vida e revolução, desejos à flor dos ventos que sopram os encontros, atração dos corpos e almas, que carregam na palma da mão o destino, esse fio misterioso que nos puxa pra lá e pra cá, até alinhar os caminhos!...