sábado, 26 de julho de 2008
quarta-feira, 9 de julho de 2008
VIRANDO PÁGINAS
João Almeida
terça feira, madrugada.
Lá vem eu!
Olha lá eu!
numa casa grande de corredor,
com quintal plantado,
e o rio Subauma
correndo lá no fundo.
Lá vem eu!
engatinhando pelos degraus,
pegando o corredor
até me pendurar
na grade da porta da frente.
O tempo passa,
e olha lá eu,
já do outro lado da porta
na sombra do tamarineiro.
O tempo passando,
e lá vai eu
subindo a rampa,
brincando na feira
e pulando vou descendo
pra rua de baixo.
Vejam! olha lá eu
mergulhando no pocinho...
---Menino! Tu vai pegar um resfriado!
Me enxugo no sol
e subo o morro dos araçás .
Agora já rapaz, olhem eu
atravessando a pinguela,
encontro incerto, ninguém por perto...
Lá vem eu!
Pegando o trem .
Daqui dá pra ver
minha felicidade
não veio na bagagem.
Olha lá eu!
desembarcando assustado,
seguindo para uma casa vazia,
morada dos outros, minha morada.
Olhem lá eu
expulso da morada dos outros
sem saber pra onde ir
com vontade de pegar o trem de volta.
Olhem eu ficando,
trabalhando, labutando,
encontrando o dia
depois de noites perdidas.
Olha lá eu!
Doente, julgado imprestável,
afastado...
Mas, olha lá eu!
recuperado, reintegrado.
Olha eu poeta!
pérolas e baboseiras
num círculo de sentimentos
arrancados pela sinceridade.
poemas perdidos, esquecidos
na verdade mortos...
Lá vem eu!
chorando, chorando, chorando...
Mas olha lá eu!
sorrindo, sorrindo, sorrindo.
Olhem! sou eu mesmo!
bêbado incompetente,
sem atitude, incoerente,
ficando diante de barcos que partem,
caminhando pelas praias desertas
e deserto.
Vejam! Olha lá eu!
engolindo sem vontade,
sóbrio numa roda alcoolizada.
Lá vem eu!
escorregando esperança abaixo,
julgado culpado sem culpa,
culpado absolvido.
Olha lá eu!
sem saber o que dizer,
falando pra valer palavras perdidas
e calado encontrando palavras
que nunca serão ditas.
Observem eu encontrando o sol!
escondido por trás de pesadelos
dos passos apressados da vida..
Olhem! Olha lá eu!
Se vocês prestarem bem atenção
Vão me ver sufocado
num espaço sem saída,
enquanto o tempo
muda a cor da vida
descolorindo o que deixei de viver.
Olha lá eu!
capengando de dor,
gemidos que não chegam
a nenhum ouvido.
Mas olha lá eu!
andando firme, corajoso,
olhem eu chegando,
olhem eu chegando!
chegando, chegando,
olhem eu aqui...
Salvador , 26/02/96.
domingo, 11 de maio de 2008
BOM DIA
João Almeida
Bom dia.
---bom dia!
abri o portão
e disse "bom dia!"
a caminho da padaria
"bom dia!"
seis pãezinhos , os mais moreninhos....
"bom dia!"
a menina do caixa
falou primeiro, "bom dia!"
O jornaleiro
joga o jornal por cima da grade
e diz : "bom dia!"
subo as escadas
a velha com preguiça
não abre a boca,
não responde meu "bom dia!"
Procura inútil...
não tem fósforo,
mas não importa,
eu quero um "bom dia!"
Digo ao velho
Descendo as escadas
"bom dia!"
"Bom dia!" responde
as sandálias do velho
se arrastando
pelos degraus.
"Bom dia!"
O homem da barraquinha
não responde,
apenas diz: trinta centavos!
Sacudo a caixa de fósforo
Batuco um sambinha
que diz: "bom dia"
Volto correndo
para o meu café,
risco o fósforo
com vontade de dizer
muito mais "bom dia!"
Enquanto a água esquenta
vou para janela
com vontade
de ter um "bom dia!"
quinta-feira, 20 de março de 2008
VOU EMBORA
Vou embora, vou embora eu aqui não fico mais...
Meus pés gritam por liberdade, já não conseguem fazer o show em cima dos saltos. Minhas mãos estão cansadas do toc toc das teclas. Minha pele reclama do perfume francês, quer o aroma que exala do patchulin nascido ao acaso, irrigado pelas águas que correm pelos regos despejadas dos canos. Meus olhos já não fotografam mais a beleza do concreto transformado em arte. Meu paladar rejeita o gosto do pão misturado com bicarbonato. Meu corpo cansou dos estofados macios forrados de tecidos fabricados por máquinas robóticas; clama pelo tapete verde da relva, que o embala ao som do rio que corre sem nunca parar em busca do seu puro e satisfeito gozo - a pororoca. Quero mesmo é sentar-me à tarde sob a copa das árvores para vê os meus amigos passarinhos brincarem, tomarem banho, gorjearem... E ao entardecer colocar um som bem cafona - de preferência sertanejo, daquelas duplas bem antigas como Milionário e José Rico - moda de viola, seresta, boleros, enfim tudo que fale de natureza ou romantismo.
Quero colocar a mão na terra, sorrir de felicidade com o desabrochar do primeiro botão de flor daquela plantinha, que cresceu cercada de tantos cuidados, de tanto amor. E os frutos suculentos das mangueiras, cajazeiras, goiabeiras, jambeiros, bananeiras, ateiras ... Que me perdoem as ervas-daninhas, mas nada mais gratificante que vê as hortaliças todas verdinhas, livres do abraço dessas danadas que sufocam e matam, a balançarem as folhas ao mínimo sinal de brisa, como se querendo dizer muito obrigada. É sublime!
Liberdade aqui? Que nada! Sucumbiu entre as paredes de um apartamento chaveado, gradeado, como se fossemos nós os animais, enquanto as bestas-feras andam livres fazendo vítimas e mais vítimas com seus instintos selvagens.
Vou embora, vou embora, eu aqui não fico mais...
sábado, 16 de fevereiro de 2008
COMPORTAMENTO
Ruy Maurity
Composição: Ruy Maurity / José Jorge
Já não tenho guardado comigo
O antigo brinquedo
Que durante um bom tempo da vida
Só me deu prazer.
Nem por isso estou menos contente ou desencantado.
Aprendi que a vida tem mesmo que acontecer...
Já não tenho vergonha
Das roupas usadas que eu ganho.
Não confiro o troco
É pouco o que tenho a perder.
Cada um traz no bolso a chave do mesmo tamanho.
Descobri que sei tanto de mim quanto sei de você...
Sim, é verdade muito embora difícil de crer,
Eu troquei meu passado por nada,
Pois cansei de brincar de esconder.
Não esquento a cabeça, não ligo,
Se o que foi poderia não ser
O presente nascendo comigo,
Toda vez que eu olho pra ver...
domingo, 10 de fevereiro de 2008
E POR QUE ?
E por que isso morena?
Ainda que não valho a pena,
por que ?
Não seria eu
Um intruso com boas intenções?
Estavas só
quando me aproximei...
Interrompi sua espera
que não era por mim.
Mas por que?
Porque era eu que te queria
me oferecendo sem inquirir
se me querias...
não me lembro
se insisti tanto
até te ter nos braços,
e malinando tanto
você foi gostando
e ficando,
talvez acorrentada no prazer.
Arrependimento
me tornou insosso, sem sabor,
alimento que não
lhe satisfaz mais.
Está claro! O quanto gostas
e não gostas de mim.
Mas eu sim,
Dono de um imbecil querer,
Que nem sei
Se lhe devo chamar de amor.
Forte!
Tão, que só eu sei
Quanto é frágil
O que resta dentro de mim.
sábado, 26 de janeiro de 2008
SAUDADE EM QUADRAS
Maria, só por maldade,
deixou-me a casa vazia...
Dentro da casa: saudade!
E na saudade: Maria!
( Anis Murad - RJ )
Saudade, a ponte encantada
entre o passado e o presente,
por onde a vida passada
volta a passar novamente
( Archimino Lapagesse _RJ)
que tu deixaste vazia,
o meu chinelo reclama
o teu chinelo - Maria.
( Anis Murad - RJ )
Ah, coração, tem piedade...
Batendo tão forte assim
vais acordar a saudade
que dorme dentro de mim...
( Orlando Brito - São Paulo )
Um carro de bois cantando
na tarde que morre em ânsia,
vai, pesado, carregando
saudades de minha infância.
( Denancy Mello Anomal - Campos )
Foi tão bom o amor de outrora
que contigo já vivi,
que estando ao teu lado agora,
sinto saudades de ti...
0(Zaira de Azevedo Conrado Leite )
De Portugal foi trazida
veio da Minho ou da Beira.
Hoje ninguém mais duvida
que a saudade é brasileira
(Osório Dutra - RJ )
Um carro de boi gemendo,
um longo apito de trem,
uma porteira rangendo,
isto é saudade também!
(Carolina Azevedo de Castro - Petrópolis )
Saudade é noite de lua,
entre sobrados antigos,
e a gente só, numa rua,
lembrando velhos amigos.
( Consuelo Jardim de Miranda - BH )
A Saudade da Bahia
tem o agridoce do umbu,
o cheiro da manga-rosa,
o pigarro do caju
( Jayme de Faria Góis -Rio )