sábado, 26 de julho de 2014

JARDIM DA ALMA.


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Posso atrever-me em perguntar como vai este jardim plantado na sua alma?
Desculpe, não é intromissão na sua privacidade, mas estou apenas querendo saber que cultivas mais flores e de que tipos, os tamanhos, as suas fragrâncias, só isso, pois, tenho tido a impressão de que, como não chove emoção há muito tempo em você, quem sabe a terra esteja árida, rachando, inóspita.
Se for assim, não se habitue as estas péssimas condições, elas matam qualquer florada, e sem floradas não existem pólen, sem pólen escasseia o mel e escasseando o mel que, gosto amargo fica na boca, na vida.
Concorda?
Tenho tido a impressão que aqueles lírios que ficavam logo na entrada do seu jardim devem ter crescidos e as rosas, plantadas um pouco mais lá atrás devem estar multicoloridas em brancas, vermelhas e amarelas, mais das amarelas, muito mais das amarelas, afinal estas são as suas favoritas.
Queria saber também se predadores têm prejudicado o crescimento delas, infestando-as de maus agouros, grilos indesejáveis, saúvas oportunistas, invejas pequenas de quem nunca cultivou flores, jamais dormiu com o insubstituível aroma dos jasmins do cabo, fartos, em cachos, generosos, parecendo querer cobrir a vida de branco emoldurando em perfume tão desejável, todos os ares que respiramos.
Vou lhe confidenciar uma intimidade: Jasmins me excitam, acho que é por me lembrarem a pureza do branco, a timidez que vejo nestas flores frágeis, a abertura encantadora de suas pétalas ensejando a facilidade dos beija-flores ao penetrá-la, sugá-la, alimentação sublime de um néctar que dá vida.
E como melhora a pele!
Amor de pele esfrega em poros, esquenta em sensibilidades, implode em jorros de prazer de vida, alternativa única de sentir a eternidade.
Mas não queria tergiversar tanto, ir mais longe do que deveria, nem atravessar outros oceanos de fantasias e muito menos tentar encontrar estrelas habitáveis no céu.
Não, não quero isso agora, agora quero somente saber como andam as flores do jardim da sua alma.
Regadas?
Faça isso sempre, não perca para o desânimo afinal, todos nós sabemos que, quando alguma coisa vai mal nas nossas vidas a primeira da qual esquecemos é continuar a dar vida às flores das nossas consciências.
Se as nuvens das tempestades não passassem, teríamos um dilúvio por semana e isso não é verdade, houve um só e, outro, vamos torcer para que não se precipite de novo.
Também, a maioria dos vulcões das nossas mentes está aparentemente extintos, para que provocar suas possíveis e teóricas erupções novamente?
Deixemos o Vesúvio em paz e, Pompéia soterrada, não deverá ser repetida, pois, o calor das suas lavas e o devastador efeito do seu magma, é insuportável.
Todo bom compositor gosta de dizer que, para não dizerem que ele nunca não falou de flores, enaltecer em versos e harmonias outras a gardênia, margarida, rosa, girassol, tulipa e...
Não, esta flor eu não vou colocar aqui, esta última espécie de flor é minha, tem o seu nome, e só é encontrada no jardim que plantei, não na minha alma e sim, no meu coração.
Ela é única, mas sobre pedra,jamais iria florescer.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Dia de Festa

Uma menina me perguntou certa vez: a vida da gente melhora da metade para o final? Ela deveria ter uns 14 anos, jovem demais para dividir a existência em duas partes e colocar suas esperanças na segunda. Já eu havia recém feito 40: estava me despedindo do ensaio geral e estreando na Parte 2, ainda sem saber o que estava por vir. Logo, o que responder?

Admiti que considerava encantadora a primeira parte: a virgindade existencial, os primeiros amores, a juventude do corpo, os sonhos projetados para frente, a morte a uma distância teoricamente segura. Não tinha como afirmar se a segunda parte possuiria munição suficiente para superar tanta vitalidade e expectativa, mas, dali onde eu me encontrava, seguia confiante, o futuro não me assustava. Apesar de ter vivido muito bem os primeiros 40, secretamente desejava que a resposta ao questionamento dela fosse um categórico sim.

Hoje aquela menina deve estar em torno dos 24 e ainda não tem sua resposta, mas garanto que anda tão ocupada que isso deixou de importar. Eu, no entanto, avancei um pouquinho na parte 2, porém continuo sem um parecer. Tenho apenas uma intuição.

Menina que não sei o nome: decretar o que é melhor, se a primeira ou a segunda metade da vida, é uma preocupação inútil – não perca tempo com isso. A única coisa que você deve ter em mente é o seguinte: o que fizer na primeira metade terá conseqüências na segunda, para o bem ou para o mal.

Se você for muito seletiva e insegura, acabará transferindo para mais tarde projetos que já poderiam ter sido experimentados. Procure viver as delícias de cada idade, arrisque-se. Se não conseguir, ok: então morra de amor, vá morar sozinha em Londres, entre para uma seita, monte uma banda, tudo isso aos 60, aos 70, e danem-se as convenções.

A maturidade traz ganhos reais. A ansiedade diminui, a teatralidade também: já não vemos sentido em agradar a todos, a opinião alheia deixa de nos influenciar. Essa liberdade de ser quem realmente somos me parece o benefício maior – os jovens não percebem, mas sua liberdade é muito restrita. São pressionados a fazer escolhas tidas como definitivas (casamento, filhos, profissão) e as dúvidas se amontoam.

A sociedade exige eficiência na condução desse script. Depois dos 40, a boa notícia: que sociedade, que nada. Não é ela que banca suas ideias, não é ela que enxuga suas lágrimas, não é ela que conhece suas carências. Você passa, finalmente, a ser dona do seu desejo. Não é pouca coisa.

A segunda metade trará vista cansada, um joelho menos confiável, um rosto não tão viçoso, umas manias bobas, mas o fato de já não haver tempo a desperdiçar nos torna mais focados e até mais aventureiros – pensar demais deixa de ser producente.

Perder a ilusão da eternidade traz, sim, conquistas instantâneas, mas, para isso, é preciso ter cabeça boa, conhecimento e uma forte base moral e ética. E isso você adquire na primeira metade da vida – ou padecerá na última. 


Martha Medeiros

Pode Entrar

A casa escancarada, a lua ali
Meu cachorro nunca morde
Meu quintal tem saputi
Tem um roseiral crescendo lindo
Quem for louco ou for poeta
Pode entrar, seja benvindo
Aqui passa o bonde da lapinha
Passa a filha da rainha
Passa um disco voador
Às vezes ele gira, pára e pisca
Como quem quase se arrisca
A parar pra conversar
Mas não me sinto só, tenho um vizinho
Que é um bêbado velhinho
Que acredita no destino
Ele mora em cima do arvoredo
Ele tem muitos brinquedos
Ele sempre foi menino
Agora se vocês me dão licença
Eu vou ver um passarinho
Que me chama no quintal
Depois eu vou deitar para sonhar
E dançar com a cigana
Que eu perdi no carnaval.

domingo, 1 de junho de 2014

formalidades


Eu quero mais é quebrar tabus, arregaçar as mangas, abrir as portas e soltar todos os meus vocábulos junto com meu coração. Quero é dizer do que gosto, de quem gosto. Repetir a dose, exagerar no gole, não fazer corpo mole e assumir meus sentimentos. Quero que se dane a formalidade que me exige andar de salto alto, corpo ereto, copos, talheres e pratos no mesmo alinhamento. Quero mesmo é dar adeus a frescura que me deixa entalada na roupa de festa e me faz beber vinho em pequenos goles, para não entornar. Que me exige dar risadinhas no canto da boca e fazer poses para ficar bem na foto.


Quero sair por ai. Andar descalça. Cumprimentar os passarinhos. Sorrir para as flores e gargalhar com as crianças. Quero falar de amor para que todos possam ouvir. ter liberdade de ficar em silêncio. Falar quando for necessário. Aconselhar meu coração. Sonhar com dias melhores. Cantar sem rima. escrever sem motivos. Chorar sem razão. Amar sem restrição.

Romper o obvio. Sair do prumo. Soltar os remos e navegar. Colher flores para dar de presente. Tricotar verdades. Descartar mentiras...Dizer bye bye para a tristeza. Não ser levada a sério. Não servir de exemplo. Não dar conselhos. Quero acordar na lua. tocar no céu. Passear pelas nuvens, pelo menos nos meus sonhos.

Quero um dia maior para viver com vontade. Um coração mais largo para caber tanto amor. Por favor, não me fale de regras, técnicas, normas. Perdi essa aula por pura teimosia.

Quero viver, aventurando-me na ousadia de fazer um belíssimo espetáculo, sem nenhum script. Sem nenhum diretor que me exija tanta disciplina. Quero é suportar minhas loucuras e me completar com o resto de alegria possível.

((Ita Portugal))

Beijos com

sexta-feira, 2 de maio de 2014

INFORMALIDADE


Lá pelo meio do século passado
os vendedores ambulantes
anunciavam na Rua da Praia:
vendo Óleo de Peixe Boi,
Extrato do Ipê da Amazônia,
pomada milagrosa tira dor,
bilhete da Loteria estadual,
assinatura da Revista Cruzeiro
e manual de como enriquecer sem fazer força...
Naquela época, na praça XV,
em torno do Mercado Público,
havia o tradicional Lambe-lambe,
o retrato em preto e branco,
três por quatro, tirado na hora
- fotos para o primeiro emprego...
As novas tecnologias varreram
hábitos e costumes antigos,
mas os ambulantes ainda estão
no Centro Histórico e agora apregoam
outros produtos:
temos  o comprimido azul importado do Paraguai,
vendemos óculos de grau por cinquenta reais,
fornecemos recibos de contra cheques
assinalados no valor que o freguês desejar
e atestados médicos de 14 diasPOR 

domingo, 23 de março de 2014

AS MULHERES SECAS

AS MULHERES SECAS - Joilson Kariri Rodrigues





As mulheres secas
não se banham, 
só lavam suas caras sujas nas águas dos olhos,
é pra isso que choram, se entristecem e choram.
quando a noite desanoitece
e o sol vem queimar o mundo,
é hora de rezar as velhas preces
é hora de rezar em vão, de juntar mais mágoas
que é para se entristecer e dar mais águas
nos olhos que são cacimbas de beber.
As mulheres secas bebem lágrimas!
tentando fazer leite nas muchibas magras, ocas
e não vem leite que dê pra tantas bocas,
dos meninos magros, secos
que só sugam nesses peitos, suor e sal.
As mães secas vivem de encantar meninos,
são enganadoras e prometem o céu que não têm
o leite que não vem,a chuva, o mingau.
As mulheres secas, pra enganar, dão até de sorrir
e escondem deles as suas dores, seus cansaços
e chupando seus peitos secos, embalados em seus braços,
mais um menino morre, sem ela nem sentir.

sábado, 15 de março de 2014

Quem me leva os meus fantasmas

Aquele era o tempo
Em que as mãos se fechavam
E nas noites brilhantes as palavras voavam,
E eu via que o céu me nascia dos dedos
E a Ursa Maior eram ferros acesos.
Marinheiros perdidos em portos distantes,
Em bares escondidos,
Em sonhos gigantes.
E a cidade vazia,
Da cor do asfalto,
E alguém me pedia que cantasse mais alto.
Quem me leva os meus fantasmas?
Quem me salva desta espada?
Quem me diz onde é a estrada?
Quem me leva os meus fantasmas?
Quem me leva os meus fantasmas?
Quem me salva desta espada?
E me diz onde e´ a estrada
Aquele era o tempo
Em que as sombras se abriam,
Em que homens negavam
O que outros erguiam.
E eu bebia da vida em goles pequenos,
Tropeçava no riso, abraçava venenos.
De costas voltadas não se vê o futuro
Nem o rumo da bala
Nem a falha no muro.
E alguém me gritava
Com voz de profeta
Que o caminho se faz
Entre o alvo e a seta.
Quem leva os meus fantasmas?
Quem me salva desta espada?
Quem me diz onde é a estrada?
Quem leva os meus fantasmas?
Quem leva os meus fantasmas?
Quem me salva desta espada?
E me diz onde e a estrada

De que serve ter o mapa
Se o fim está traçado,
De que serve a terra à vista
Se o barco está parado,
De que serve ter a chave
Se a porta está aberta,
De que servem as palavras
Se a casa está deserta?
Quem me leva os meus fantasmas?
Quem me salva desta espada?
Quem me diz onde é a estrada?
Quem me leva os meus fantasmas?
Quem me leva os meus fantasmas?
Quem me salva desta espada?
E me diz onde e a estrada