quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O Dia Inacabado

Lêdo Ivo 
 
Photo Rarindra Prakarsa

Como todos os homens, sou inacabado.
Jamais termino de ser.
Após a noite breve um longo amanhecer
me detém no umbral do dia.
Perco o que ganho no sonho e no desejo
quando a mim mesmo me acrescento.
Toda vez que me somo, subtraio-me,
uma porção levada pelo vento.
Incompleto no dia inacabado,
livre de ser ainda como e quando,
sigo a marcha das plantas e das estrelas.
E o que me falta e sobra é o meu contentamento. 

Lêdo Ivo 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Os que Vinham da Dor

Sebastião da Gama
Anne Bachelier


Os que vinham da Dor tinham nos olhos
estampadas verdades crudelíssimas.
Tudo que era difícil era fácil
aos que vinham da Dor diretamente.

A flor só era bela na raiz,
o Mar só era belo nos naufrágios,
as mãos só eram belas se enrugadas,
aos olhos sabedores e vividos
dos que vinham da Dor diretamente.

Os que vinham da Dor diretamente
eram nobres de mais pra desprezar-vos,
Mar azul! mãos de lírio! lírios puros!
Mas nos seus olhos graves só cabiam
as verdades humanas crudelíssimas
que traziam da Dor diretamente. 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

UMA TERRA ASIM, ASSIM !


Amanda Cass


“A Terra repleta de céu,
e cada arbusto comum incendiado com Deus,
mas só aquele que vê tira os sapatos;
os outros se sentam ao redor e colhem amoras”.

Elizabeth Barrett Browning (1806-1861)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Na cidadezinha


Alois Hans Schramm

As moças das cidades pequenas
com o seu sorriso e o estampado dos seus 
vestidos
são as próprias vida. 
Elas é que alvorotam a praça. Por elas
é que os sinos festivamente batem, aos domingos.
Por elas, e não para a missa!... Mas Deus não se 
.......................... importa...afinal,
só nessas cidadezinhas humildes
é que ainda o chamam de Deus Nosso Senhor...

Mario Quintana (1906-1994)

Moça branca



Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento. 

(Ferreira Gullar)

Canção do Violeiro


Castro Alves 

O Violeiro - Almeida Júnior


Passa, ó vento das campinas, 
Leva a canção do tropeiro.
Meu coração está deserto,
Está deserto o mundo inteiro.
Quem viu a minha senhora
Dona do meu coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
Ela foi-se ao pôr da tarde
Como as gaivotas do rio.
Como os orvalhos que descem
Da noite num beijo frio,
O cauã canta bem triste,
Mais triste é meu coração.
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
E eu disse: a senhora volta
Com as flores da sapucaia.
Veio o tempo, trouxe as flores,
Foi o tempo, a flor desmaia.
Colhereira, que além voas,
Onde está meu coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
Não quero mais esta vida,
Não quero mais esta terra.
Vou procurá-la bem longe,
Lá para as bandas da serra.
Ai! triste que eu sou escravo!
Que vale ter coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão. 

Castro Alves (1847-1871)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

FALTANDO UM PEDAÇO

DJAVAN


O amor é um grande laço
Um passo pr'uma armadilha
Um lobo correndo em círculo
Pra alimentar a matilha
Comparo sua chegada
Como a fuga de uma ilha
Tanto engorda quanto mata
Feito desgosto de filha,
De filha

O amor é como um raio
Galopando em desafio
Abre fendas, cobre vales
Revolta as águas dos rios
Quem tentar seguir seu rastro
Se perderá no caminho
Na pureza de um limão
Ou na solidão do espinho

O amor e a agonia
Cerraram fogo no espaço
Brigando horas a fio
O cio vence o cansaço
E o coração de quem ama
Fica faltando um pedaço
Que nem a lua minguando
Que nem o meu nos seus braços

X® ((*..*))

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