
Por Caio Fábio
Kierkegaard certa vez disse que a vida é um baile de máscaras.
Ele sabia
que este era o escudo atrás do qual as almas se escondiam de si mesmas,
e, assim, tentavam ocultar suas faces também para a percepção dos
demais.
A maioria quer ser famosa, mas poucos querem ser conhecidos!
Ora, usar
máscaras, para muitos, não passa de truque, de um direito, de uma opção:
ser ou não ser; mostrar ou não mostrar; como se tal bravata contra o
próprio ser pudesse passar sem punição.
Para muitos, esconder-se atrás das máscaras é apenas um questão de proteção ou de diversão inexaurível e viciante.
Sim, acaba virando um vício do ser, a tal ponto que sem as máscaras muitos homens não suportam e morrem.
Assim, para a maioria, sem o personagem, acaba a pessoa.
Talvez
esta seja a razão pela qual até agora ninguém conseguiu conhecer você,
pois toda revelação que você faz de “si mesmo”, é sempre uma ilusão.
Você não sabe quem você é, mas apenas sabe qual deve ser a sua imagem, a sua máscara.
Nesse
caso, sua mais ardente e compulsiva tarefa na existência consiste em
preservar seu esconderijo. E, sem dúvida, devemos admitir que muita
gente desenvolveu tal capacidade de transformismo com a mesma habilidade
dos polvos miméticos.
Sendo assim, diz Kierkegaard, “você é tão mais bem sucedido, quanto mais enigmática for a sua máscara”.
Quando a existência se transforma “nisto”, eu e você viramos de fato nada além de NADA.
Ou seja,
passamos a ser apenas uma “relação com os outros”; e o que nos tornamos é
unicamente em razão e em “virtude dessa relação”.
A moral é a
grande máscara. E os moralistas são o que detém o maior número de
disfarces. Entre esses, o mais danoso de todos é o estelionatário da
religião, o picareta que come as almas dos homens.
Lobos
mascarados de ovelhas! A maioria existe assim. Daí, para muitos,
catástrofes que lhes roubem as “máscaras” os deixam em estado de
desespero, visto que sem a máscara eles não possuem um rosto próprio,
algo que a própria pessoa reconheça para si e como sua, e não apenas
como um reflexo da imagem que os outros devolvem para você mesmo,
supostamente acerca de quem você aparenta ser para eles.
Desse
modo, você vende imagem, e se alimenta dela. Mas no dia em que as
máscaras são tiradas, muitos não conseguem mais viver, pois neles não há
uma vida própria, mas apenas uma existência fabricada para consumo no
Baile de Fantasias, que é a existência da maioria.
”Você não
sabe que vem a hora chamada “meia noite” na qual todos terão que lançar
fora suas máscaras? Você crê realmente que a vida se deixará zombar para
sempre? Ou talvez você pense que pode escapar um pouco antes da “meia
noite” e fugir de tal hora? Ou será que você fica apavorado com essa
idéia?”—pergunta o profeta.
Você
consegue pensar em algo mais apavorante do que ter que viver tal “meia
noite” em sua existência na Terra ou em qualquer outro lugar onde isto
possa lhe acontecer?
Quem vive nesse Baile de Fantasias não tem idéia do que faz de mal à sua própria alma.
Não existe droga mais viciante do que a força compulsiva da “máscara”.
Aquele que
se faz um com a mascara, faz-se um com o Nada, pois sua natureza vai se
dissolvendo numa multiplicidade...e que acaba fazendo com que esse ser
realmente se torne muitos.
Você pode
se tornar semelhante àquele pobre Gadareno, ocupado por “infelizes
demônios”; numa legião de falsas identidades, que não são suas
identidades, e muito menos correspondem a você!
Os demônios habitam sob máscaras.
Por isto mascarados lhes são tão desejáveis residências.
Pobre do auto-enganado que pensa que as máscaras o salvarão!
Tire de
sua cara a máscara. Do contrário, você poderá vir a perder a coisa mais
sagrada e preciosa de um homem - o poder unificador da personalidade, e a
capacidade abençoada de se tornar alguém que seja realmente você.
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