segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Da pior ternura


Chorar, só se ficasse assim parada, sentada quieta na cozinha. Mas sem soluço, os marejares rasos

02/02/2012

Ana Santos

“A vida é amarga e doce?” Adélia Prado

A mãe tinha jeito de bailarina: o passo delicado, as pernas pra lá e pra cá o dia inteiro.

Achava lindo ganhar gardênia, ah se teu pai me desse gardênia. Mas nem sabia que flor era, que cheiro tinha. Gostava era do nome, palavra assim, de verso.

Ela tomava café com barulho, comia pão rápida, alegre, a boca um pouco aberta, que era pra rir de tudo o que eu dizia, e eu aos sete dizia muito. Que ia ser jardineiro, plantar gardênia aos milhões. Só tinha livro de amor. Terminado o serviço, tomados os banhos, punha vestido de estampa e sentava no quintal, o cabelo molhado, a comer tangerina e ler baixinho, cochichando. Às vezes suspirava e o olhar longe, a testa franzida.

Ouvia compacto e cantava. Eh, como a senhora desafina! Então dançava segurando a saia, Borralheira em baile.

Quando escrevia carta, fazia cara seriíssima e começava assim: “Saudações!”, a letra bonita, redonda.

Bom era fazer sol pra mãe lavar roupa, estendê-la no varal, refestelar-se lagartixa até dizer mas que mormaço! e buscar a sombra da ameixeira. Se chovia, desenhava bicho. Me faz um lindo dum pombo azul, dum gato amarelo, dum peixe da escama vermelha — e o pombo e o gato e o peixe, mas sempre o sem cor, que ela tinha pressa. O pai: eh, artista!

Era passar avião que ela corria a olhar feito boba, ainda mais se fosse a jato. O risco que ele deixa, retinho, retinho... deve de dar lá no Japão!

Andava nem de bicicleta, mas queria que eu sei, uma vez o pai saiu em rodas e ela disse: que beleza, né, se pedalar-se...

A vez que teve festa na praça, ela estava feliz demais, vestiu a gente em roupa nova, engomada, chamou o pai pra dançar e ele foi, resmungando, achando que aquilo não podia estar certo. Mas se pisaram tanto os pés que o pai acabou rindo, um riso assim de quem não tem dente, envergonhado. Aí a mãe riu como se o resto do mundo fosse triste, e meu coração doeu da pior ternura.

Chorar, só se ficasse assim parada, sentada quieta na cozinha. Mas sem soluço, os marejares rasos. É que a gente pensa umas bobage...

Quando morreu, ficamos o pai e eu sem ter o que fazer. De outono a outro, os dois zanzando pela casa, inexistidos. Um dia ele disse com raiva: vamo queimá os desenho tudo. E recolheu monte de folhas, calhamaço. Mas não fez fogo. Pegou nuns lápis e foi pintando, vagaroso, dando azul pra pombo, vermelho pra peixe.


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