segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O Presente Maior

(Roberto Lima)




Para os meninos David Drummond e Hique Silva

 
O que dar de presente a um menino no dia de seu aniversário?
Das minhas recordações da infância salta uma bola de futebol, presente de uma tia de Belo Horizonte.
Cresci achando ter ganhado menos presentes do que mereci.
Adulto, entendi que recebi muito mais do que puderam me dar.
O que dar a um filho, menino, no dia de seu aniversário?
Um futuro brilhante?
Um lugar garantido em Princeton, quando ele crescer?
Um poema?
Uma canção?
O gol da vitória numa final de campeonato na escola?
Um dez em matemática?
Um pai e uma mãe honestos e de bom coração?
Estes últimos são, a meu ver, um presente imprescindível.
Tudo o mais, vem junto, a reboque, dentro dos limites de cada um.
Eu, se pudesse, daria uma professora carinhosa e meiga, quase uma extensão da avó.
E um carrinho de madeira, com capô de lata e rodas recortadas de uma velha sandália havaiana.
Um peão, uma pipa e um carrinho de rolimã.
Um embornal com um estilingue e muitas bolinhas de gude.
E frutas maduras, cheirosas, suculentas, tiradas diretamente do pé.
Daria ainda manhãs de grama orvalhada.
Uma estrela que nunca se apaga.
E uma fogueira de São João.
Daria férias inesquecíveis na fazenda.
E um piau prateado, daqueles que dançam no extremo da linha que pende da ponta da vara de pescar.
Daria ainda um passeio no lombo de um cavalo troteiro.
E a visão confortante, ao longe, de uma chaminé fumegando na paisagem.
Construiria uma estrada margeada por flores silvestres, margaridas, cravos, lírios e jasmins.
Daria um conselho de avô.
Um biscoito da avó.
Um mergulho no riacho.
Uma ducha na cachoeira.
Uma lua cheia.
Noites sem pesadelos, sem bruxas malvadas ou dragões cuspindo fogo.
Chuvas?
Só se fossem as de verão, cantando “sol e chuva, casamento de viúva”.
E o ar com cheiro da terra molhada e um arco-íris, com seu pote de ouro, bem no fim.
Daria-lhe ainda uma festa de aniversário coalhada de balões coloridos num dia ensolarado, bem no começo da primavera.
E um bolo de chocolate com uma vela numeral em cima, além um coral de amiguinhos do peito, puxando um desafinado mas, entusiasmado, ‘parabéns’.
Mas os tempos mudaram, eu sei.
E hoje só se fala em videogames, bicicletas cibernéticas, rollerblades, Ipods, celulares, roupas de grife, viagens a Disney e bonecos de super-heróis, daqueles que lançam raios laser de seus olhos.
Não existe nada de errado nisto.
Mudaram os tempos e as prendas que damos aos meninos.
O que não podemos mudar é aquilo que acredito ser o presente maior.
No meu relicário, que é onde guardo as coisas de maior valor, estão o respeito e a admiração por um cara que sempre me deu muito mais do que pôde dar:
O amor pelo filho, esse sim, é um presente que dura para sempre. Herdei do meu como lição.
O resto, todo o resto, também é importante.
Mas é coisa menor.
Bem menor.
Grande é a infância.
 
(Roberto Lima)
 
 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A vida é tão maravilhosa porque ela nos compensa com ela mesma.

E, diariamente, eu chego à simples conclusão de que a vida é tão maravilhosa porque também é feita de colos, de feridas que cicatrizam, de amigos que celebram ou choram junto, de café coado com coador de pano, de gente que pega ônibus ou faz caminhada pela manhã, de quem planta o que se pode comer, de "Seus Saluns" que presenteiam seus vizinhos com laranjas que ele mesmo colheu e que alimenta seus gatos com comida de gente. Que a vida é feita de algumas pessoas que direcionam todo o seu potencial criativo para melhorar a qualidade de vida de gente que eles nem conhecem. Que é feita de e-mails que chegam recheados de saudade e de cartas extraviadas solitárias numa gaveta de um correio qualquer. De muros e pontes e cais. De aviões que suprimem distâncias e de barcos que chegam. De bicicletas que atravessam cidades. De redes que balançam gente. De rostos que recebem beijos. De bocas que beijam. De mãos que se dão. Que existem pessoas altamente gostáveis, altamente rabugentas, altamente generosas, pessoas distraídas que perdem as coisas, mal-educadas que buzinam sem necessidade, pessoas conectadas que se preocupam com o lixo, pessoas apaixonadas e apaixonantes, possíveis e impossíveis, pessoas que se entregam, pessoas que se privam, pessoas que machucam, pessoas que chegam pra curar; desencadeadores de poemas, de sorrisos,de lições de vida que ficarão guardadas para sempre...


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Saudade....


Tua ausência cala o mundo, o mar, os ventos.
Tua ausência desaba silenciosamente sobre os meus dias, soterrando meu outono…
ela magoa demais o meu sossego.

Tua ausência é tão presente que é pessoa… E me abraça.

Era um construtor...


João Almeida

Costumava subir o morro e olhar suas obras, admirando-as. Assim passou um bom tempo olhando sua casa, a fumacinha  dançando no espaço, subindo, subindo não se sabe pra onde.
Eu fiz aquela casa!
Crianças dando voltas, pulando, correndo sobre uma grama verde-cana. A esposa no varal ele enxergava uma obra-de-arte, a bandeirola de roupas que ela fazia.
Eu fiz aquela familia!
Desceu feliz pela trilha que ele fez encontrando um sorriso de paz no rosto de  sua Maria e a harmonia nos riso e gritos  dos filhos e acabou por entrar na brincadeira maluca deles até o cansaço chegar. Nunca imaginou subir o morro e não ver os meninos no terreiro nem as bandeirolas de roupas.
O tempo passou.
O construtor não entende, para onde foram os laços que atavam sua família?  se romperam naturalmente. É isso que o tempo faz. Outros não naturalmente, mas cada um para seu canto foi o que aconteceu. E agora ?  somos dois, e as vezes mesmo juntos somos um...até que fosse, se fosse para eu subir o morro devagarzinho para ver Maria  lá de cima apreciando os pássaros, e saber que nunca ela cansará desses momentos,  mas ser um é muito dificil!  reflexões indicam às vezes desiluções, decepções pelo silencio que o tempo nos impõe,  vida nova!     é isso.... depois de certo tempo é da vida o esquecimento nos tempos de hoje, é uma diferença enorme entre os construídos e o construtor . Então o construtor ver demolida sua maior obra, a união construida com o suor do seu amor. Não fosse sua vontade de continuar feliz o que seria ? então a contra gosto passa uma esponja nesse pedaço do passado e tenta fazer do presente o melhor para sua vida.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Um dia para o seu pai e você



pedro antônio de oliveira

Dê um abraço bem amigo no seu pai. E até um beijo, se sentir vontade. Menino que cresce também pode beijar o pai, por que não? Eu beijo o meu. O amor é unissex e beijoqueiro. 

Se você puder e precisar, peça perdão a seu pai. Todo mundo erra. Todo mundo tem o direito de recomeçar uma velha história de um jeito melhor. 

Perdoe o seu pai, se por acaso foi ele quem errou o caminho. Um coração de filho de verdade perdoaria. No fim, o que manda é o amor. O resto não importa. Perder tempo é uma bobagem. A vida pode ser longa, mas passa depressa, não percebeu? 

Se você é mais pai do seu pai do que ele deveria ser para você, aceite. Quando houver um curso para formação de pais, haverá também um para aperfeiçoar os filhos, outro para curar cegueira da alma, mais outro para confiar em Deus e outro e tantos outros... para deixar o mundo perfeito. Mas, se você for esperar por isso, talvez se canse.

Se você e seu pai já são ligados um no outro há tempos, joguem conversa fora. Saiam para rir à toa. Tão bom ser feliz ao se lembrar de quando a gente era criança e o pai era aquele gigante invencível, imbatível, um sujeito ideal. O meu, por exemplo, sabia tudo. Até hoje sabe. (Shhhiiii... fala baixo! Ele sabe mais ou menos, bem menos do que eu acreditava que soubesse. É que um dia a gente descobre que pai desconhece uma pilha de coisas. Por falar nisso, vale a pena despistar quando o pai der mancada. Isso também se chama amor, compaixão, respeito...) 

Hum... E se seu pai não estiver mais com você? Paciência. Feche os olhos e pense nele. Faça silêncio. Faça uma oração. Faça uma música. Deixe rolar uma lágrima refrescante. Agora, se ele estiver do seu lado, comemore, dê um sorriso; fale para ele: Pai, eu te amo! Tem gente que acha difícil falar que ama. Mas não é não. É mais fácil do que você imagina. Depois que você falar pela primeira vez, vai querer falar sempre, toda hora. Se não conseguir, escreva no cartão: Pai, eu te amo! Faz quase o mesmo efeito. Só não deixe esse sentimento em segredo.
...
pedro antônio de oliveira

sábado, 15 de setembro de 2012

Doce Sonho

 MILA BORGES

Leve como uma pena estava eu a flutuar no meio de um sonho.
Eu tinha ciência de que sonhava, mas não podia nem queria me despertar...
No sonho tudo é tão lúdico quanto encantado! As dimensões pregam peças aos nossos olhos, e o tempo, tem um tempo diferente...
Meus pensamentos são empíricos, portanto, me sinto em casa e de pernas pro ar...
Tenho apenas uma pequena noção dos espaços... Meu subconsciente se encarrega dos detalhes.
Dou cambalhotas ao vento e saltito de nuvem em nuvem, porque aqui, a gravidade obedece a minha lei. E a minha lei é a liberdade!
Neste sonho, leve eu estava e leve eu voava para dentro de mim mesma... Mergulhava em sangue vermelho vívido, escorregava feito como se escorrega em tobogã por artérias e veias... Glóbulos brancos bailavam, pulsavam, brincavam de fazer o corpo funcionar!
Meu corpo todo era energia e emanava uma luz azul brilhante, como água do mar que brilha ao ser tocado pelo sol!
Era eu, inteirinha pulsando em sonho! Viva para aquela doce realidade ilusória...
Joguei-me então no mar dos meus desejos, onde cores, sabores e aromas explodiam em mim, como fogos de artifício.
Tudo brilhava em águas brandas e mornas. Era uma acolhida!
Peixinhos fluorescentes nadavam comigo e rodeavam meu corpo, cantando cirandas e rodando, rodando, como o mundo que gira, e gira e a gente não sai do lugar! Em coro, nós cantávamos e sorríamos em reverência ao lindo sol que despontava no Céu, um Céu cada vez mais azul anil!
Ondas me levavam para lá e para cá e num repente estava eu imersa em fantasias e flores, todas as flores, de todas as cores, como num sólido jardim gigante! Estava eu tão miúda, sendo pólen de flor, eu estava germinando! Era eu donzela rosa, a procura de um cravo bem amarelo! Eu tocava com meus olhos o horizonte, mas não via o cravo. Todas as cores e onde está o amarelo? Eu não via!
Era eu rosa cor de rosa a procura de um amarelo... Distraí-me com o colorido da borboleta!
E que linda borboleta! Fui com ela plainando sobre os girassóis! Borboletando, borboletando!
E nos girassóis, meu amarelo apareceu para me abraçar tão docemente... Que sensação agradável!
Quanta alegria resumida nas cores das flores! No bater das asas da borboleta bonita!
Como num passe de mágica, surgiu ao longe, para acariciar meus olhos, um encantador arco íris! Feito de tinta guache e purpurina!
Era a confirmação de que as cores me sorriam! Parte de um sonho embrulhado para presente!
Aceitei de muito bom grado!
Corri para verificar se acharia nas extremidades do arco íris um pote de ouro e mel!
Uma chuva bem fininha começou a cair, mas não era água o que as nuvens derramavam. As nuvens se desfaziam em jujubas coloridas! Cores! Mais cores! E mais!
Doces!
Que doce sonhar!
E o que achei na extremidade do arco íris foi algo ainda maior e mais bonito que ouro! De um esplendor fantástico! Era um universo azul royal, com estrelas prateadas piscando, faiscando fagulhas de paz para alegrar a lua! Havia uma festa naquela noite! Pois é, anoiteceu e tudo se iluminou.
Era um prateado tão intenso e belo que meus olhos lacrimejavam de emoção...
Na festa noturna e prateada, teve valsa e teve samba... Os astros se reuniram para sonharem junto comigo...
Cometas, luas, estrelas, sóis... Eu, estrelando um sonho meu!
Eis que um relógio feito de ouro badalou as horas do fim...
Mas já?
Ahhhh não! Só mais um pouquinho...
Porém o despertar estava quase, quase...
Agarrei-me a uma estrela cadente e desci com ela para o solo macio e fofo, feito de lençóis e colchões e almofadas e...
Abri os olhos...
Era dia!
Foi um sonho tão bom e tão lindo...
Fiquei um tantinho ainda deitada, olhando para o teto do meu quarto relembrando cada momentinho do que naquela noite, vivi sonhando...
Levantei-me.
Quando de repente pus a mão nos bolsos do pijama e...
Oh! Que surpresa...
Em um bolso havia jujubas coloridas...
No outro, um lindo girassol amarelo!

terça-feira, 11 de setembro de 2012

20 anos





 
Na xícara de louça branca, o café preto.
 Minha mente em silêncio senta à mesa.
 Hoje é dia comum. Há trabalho. Há compromissos. Há estudo.
 Só não há graça.
 Amanheci com olhos molhados.
 Quase ninguém sabe. Quase ninguém lembra.
 Pareço pálida, mas é melancolia. 
 Cabeça entre as mãos.
 O café está com gosto estranho. Será que alguma coisa caiu no café? 
Eu brinco de fugir. As lembranças brincam de me achar. 
Em dias como esse, eu vou.
Um passo e meio de distância. As vezes meio passo. 
Preciso seguir.
 São 20 anos profundos. Lá atrás, ficaram marcas bonitas. 
Pares de pegadas, colo, mãos no cabelo,
 leituras e longas horas de conversa,
sobre a vida e sobre Deus.
 Eu tenho usado aquele kit sobrevivência que você deixou,
mas nem com ele eu consigo sair ilesa dessa saudade.
 Sem seu abraço eu sinto frio.
 (lágrimas)

Nem sempre tenho certeza se estou indo no caminho certo ou que você gostaria,
mas é assim mesmo... No fim tudo se ajusta!