segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Quero um caderno de receitas

Adriana Alves

Quero um caderno de receitas que tenha o sabor do quintal da minha casa. Entre os ingredientes haverá um pé de manga coquinho, de abacate manteiga, de jambo amarelo na cor e rosa no perfume, de goiaba vermelha com bicho, de limão capeta e uma parreira de maracujá com flores penduradas como se estivessem sido colocadas à mão para enfeitar o olhar.
Nesse caderno haverá indicações para que a cebolinha, a salsinha, o manjericão e a alfavaca sejam colhidos na hora. A couve terá piolhos e poderá ser descoberto um caramujo no meio das folhas de alface.
Na receita de batata gratinada poderá conter indicações para que as cascas sejam colocadas ao sol em cima da terra para secar e virar adubo, fazendo as verduras crescerem de modo destemido. Um exemplo vivo que a vida é recheada de ciclos.
No meu caderno o ora-pro-nobis, o umbigo de banana, a taioba e a serraia não serão figurantes, e sim as estrelas principais. O preparo de doce de feijão poderá ser uma forma torta para medir o amor.
A descrição das porções fará referência a quantidade de pessoas nada gulosas, gulosas ou muito gulosas que irão comer os pratos. Haverá também descrição de pessoas formigas, aquelas que gostam muito de doces, pois cada um sabe a fome de vida que tem.
As folhas serão manchadas de farinha e gordura. As receitas serão lidas como oração, pois mesmo já decoradas de cor e salteado, faz parte do ritual acompanhar no papel.
Na descrição dos ingredientes será considerada uma falta grave não especificar que os ovos devem ser caipira na cor azul-esverdeado. A penalização será a falta de sabor.
Nesse caderno as receitas nunca serão anônimas. Elas farão referência aos afetos e sabores compartilhados à mesa ou fora dela. Haverá o Cookie da Marcilene, Creme bruleé da Helena, Bifes de peru com molho de cerejas e Favaios da Mané, Café ralo e doce da tia Lídia, Chuchu picadinho com bacalhau da minha mãe, Bolo de Banana da Thati, Biscoitos de fubá da Claudete, Bolo de Amêndoas e Frutos Silvestres da Andreia, Pizza do Giovanni, Biscoitão de Polvilho da dona Edméa, Pão de mel da Patrícia, Bacalhau com batatas da Lilia, Patê da Maria Paula, Macarron da Silvana, Mousse de Maracujá da Carol, Rabada da Flávia, Pamonha da dona Nega, Queijo do pai da Carmen, Beijinho da Lúcia Helena, Pão do Caio, Macarrão ao alho e óleo do meu pai, Gelatina com frutas e creme de leite da tia Natalina, Strudel da dona Helga, Bolo da Vera, Massa caseira da Márcia…
Quero um caderno com muitas folhas e que caiba todas as receitas que ainda não registrei – com a mesma quantidade das estrelas lá do céu.

RETALHOS DO QUE SOU

VAN


HÁ EM MIM UM TANTO DE TERNURA E DOIS TANTOS DE BRAVURA
TALVEZ EU SEJA FORTE POR TER NASCIDO NAS MONTANHAS,
TALVEZ EU SEJA DOCE POR TER ME CRIADO EM MEIO AO DOCE SABOR DAS JABUTICABAS
TALVEZ EU SEJA BRAVA POR PERTENCER À LINHAGEM DOS QUE DESBRAVARAM E REVELARAM O SERTÃO, AQUELE DAS VEREDAS,
MAS TALVEZ EU NÃO SEJA NADA DISSO E ESTEJA APENAS DESCOBRINDO QUEM SOU...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Não importa

Autor desconhecido


Não me importo se você está de pantufa,tênis ou havaianas, o importante é que sua alma venha descalça, saltitante e sorrindo. Não, eu não exijo nada, nem quero parecer relutante ou atrevida. Eu quero que você venha sem esperanças frouxas, sem esperar o inédito ou o inacabado. Venha agora. O coração está limpo e a alma está lambuzada de gratidão. Eu quero entregar as tuas amarras nas mãos da paixão. Quero agarrar o que foi feito pra mim. Não importa se vai doer, se é bonito ou feio. É meu. Traga o que te destrói e junta aqui comigo, a gente aguenta qualquer coisa, porque juntos somos um só. Desafios? Quero todos, desde que você me carregue no colo quando meus pés cansarem de afundar.

NÃO SE ENGANE

JU FUZETTO

Não se engane com meu olhar doce, nem com a minha mania de espremer os olhos, quase fotografando o vento. Sou simples, mas o coração é sofisticado. Guardo certas belezas invisíveis e a feiura de gente sem emoção não apetece a embriaguez de minhas mãos atrapalhadas. Sou o inverso que não acomoda a rotina, não tranquilizo, sou uma espécie de metamorfose, uma rosa quase espinho. Sou a faca que corta a mentira, sou o beco da neurose perdida na exatidão. Exagero no sentir, meu alicerce aguenta. Fui moldada no aço, mas flutuo feito pluma. Sou o blefe, nasci sem etiqueta pro comodismo. Não enceno, escrevo. O papel é minha jogada, histórias são meus pretextos contra os males do mundo.
Jogo o roteiro pra cima e corro pra pegar. Tenho pernas, mas ajo como se tivesse asas. Tenho pressa, mas prefiro chegar atrasada. Meu script é uma piada, minha vida é bem real.

A RUA SEM SAÍDA

RICCO SALES

Fiquei com tanta pena
Da rua sem saída que não tinha
Pra onde ir, caminho, esperança,
Que ali se acabava
Que ali se extinguia
Sem poder voltar ou começar do fim
Fiquei com tanta pena
Pelo tanto de nada naquilo tudo

Senti uma emoção pequena
De tonalidade serena
A manchar as paredes do meu coração
E são de tinta duas mãos
Ainda parado e perplexo por quase nada
Parou-se o tempo ao meu redor
Somente ali na rua sem saída
O trechinho de rua sem endereços
Nem o tempo lá ia, só o desprezo

Fiquei com tanta pena
Daquele pedaço de asfalto sozinho
Sem escutar nenhuma conversa
Quem dera um verso em desafino
Ou um jogo se bola, um encontro de amigos
Ou um beijo noturno, escondido do mundo
Nem início de surto, nem passarinho
Nem pra lá se vão os cachorros sem lar
E antes de alguma coisa falar, ninguém vi
Lá tem nada, nada, nada
Fiquei com tanta pena

EU DO MATO

João Almeida

Eu do mato!....

Mas índio que um próprio...

Sem relógio no pulso,

Quase nu...

Eu do mato!

Fugindo em disparada

De um índio tatuado!

Eu do mato!

Formiga! Umbaúba, cobra coral!

Borboleta, cansanção!

Eu do mato!

Catador de castanhas,

Plantador de feijão.

Eu do mato!

Cipó, vara de cambotá,

Jardins embaraçados

Flores de toda cor.

Eu no mato!

O sol nascendo

na palma da minha mão.

Chuvinha caindo, fininha

Engrossando fazendo mingau

Com a poeira do sertão.

Eu no mato!

Céu estrelado

Noites de escuridão,

Noites enluaradas,

Vento fresco de madrugada.

Eu do mato!

Voando com sabiás,

Gorjeiando como curió,

Viajando no piscar dos vagalumes...

Eu do mato!

Arco-iris de passarinhos,

Garças e urubus

Proteção nos olhos da coruja

Eu no mato!

Saudades e mais saudades

Do riacho, da beira do rio

Das ingazeiras e dos araçás.

Eu do mato!

O melhor da vida

Se passa lá..

Eu no mato!

Encontro Deus

Na sombra da mangueira,

Nas sombras de qualquer fruteira.

A Primeira Hora

De Fernanda de Castro ,



"O ano desfolhou-se, dia a dia,
como uma flor cortada, um girassol,
e dia a dia a sua voz calou-se
como velha cansada melodia
de velho rouxinol.

Ontem, à meia-noite, a minha rua
abriu de par em par as portas, as janelas,
e jogou fora o lixo, as coisas velhas:
cacos, farrapos, latas e panelas.

Era a Primeira Hora
do ano que chegava.
- E eu? - pensei - Que posso jogar fora?
Que poderemos todos jogar fora?

( ... )

Ah, Senhor, nesta hora de perdão,
nesta Primeira Hora,
quantas coisas podemos jogar fora!"

domingo, 1 de janeiro de 2012

SONETO MANSO COMO UM CARNEIRO AZUL

Jaci Cordeiro


Meu irmãozinho Alberto anda sorrindo
Nas claras ruazinhas de algodão
Do bairro pobre, onde esqueceu, florindo,
Por descuido, quem sabe?, o coração,


Da janela o saúdo. O dia findo
Vem dormir enfadado em minha mão
De carícias de lã. É muito lindo
Ser bom assim, ninguém me diga não.


Troc... Troc... Seus passos na calçada
acordam meu chapéu de tinta gauche.
Retiro o riso da expressão cansada.


O que fazer? Reflito, desolado.
E o Alberto lá vai, talvez não ache
Seu pobre coração desmantelado

Esperança

Clarice Lispector
Aqui em casa pousou uma esperança.
Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza.
Eu não mexia o braço e pensei: "e essa agora? Que devo fazer?"
Em verdade nada fiz.
Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim.

O Livro de Receitas da Vida



Se a vida fosse um livro de receitas, qual seria o seu prato principal? E qual a sobremesa favorita? Por certo, haveria um restaurante onde estes pratos poderiam ser degustados, mas você seria o chefe da cozinha? Ou todos trabalhariam ao acaso dos atos impensados? Qual seria o nome do espaço? Existiria uma inspiração, ou o cardápio se construiria como consequências das necessidades cotidianas?

As dúvidas formam um tempero essencial a qualquer prato especial, por que não existem receitas perfeitas e por isso a vida não é um livro com os modelos do que se deve fazer. Mas na vida o prato principal com certeza é o amor. Amor de homem e mulher, amor pelo escuro, por saber da existência do claro; pelo som, em agradecimento ao silêncio; pelo feio, que faz a beleza ter sentido; pelo abraço, que isola o mundo e faz parecer que só existe quem abraça e quem é abraçado.

A minha sobremesa favorita estaria sempre acompanhada de carinho, e a degustação seria aberta a todos. Na cozinha da vida é preciso que exista um chefe que aponte a direção dos sabores, dos amores. Assumir os riscos do impensado nos aproxima demais do erro, mas até os erros serão bem vindos quando acompanhados de boas lições. O espaço teria o seu nome associado a uma crença universal, a vida é a fonte do amor, então, se chamaria: Bistrô, Fontana Dell Amore.

Por fim, a inspiração estaria no viver... Um dia por vez, sem amarras que nos impedissem de sonhar, ou regras que dissessem que não se deve chorar. O cotidiano é uma delícia, para quem ama o que faz.

P. S. Em 2011 é possível que você sofra um pouco, chore e até se sinta sozinho. Mas lembre-se que a vida é uma receita inacabada, onde cada um pode colocar a sua pitada de tempero e torná-la única. Portanto, ame, sofra, chore, morra e ressuscite no dia seguinte para mais um pouco de felicidade... A vida é hoje!

A Alma e o Vendaval


A primavera se aproxima cheia de ausências: faltam flores nas janelas e esperança nos olhares. Sobram dores no peito que ama e falta espaço no quadro que não escrevo. Para onde vão os pensamentos que não se concretizam? Todo tesouro instiga a procura. Toda liberdade é felicidade e a flor que dança no vendaval representa minha alma sem saber pra onde ir.